sexta-feira, 14 de abril de 2017

Erskine Caldwell ou o fim da humanidade

Já aqui falei do Caldwell. De como encontrei estes livros velhos e imóveis da casa de onde a minha avó teve de sair. Trouxe três para minha casa, fui lendo um a um, até chegar a este.

Não sabia muito do Caldwell e não li nada sobre este livro quando o comecei a ler. E agora que o acabei, e que tinha tanto que dizer, fui ver o que andaram a escrever. E é tudo curto, insuficiente, e nenhum texto foi ao sítio que era o sítio onde era preciso encontrar o Caldwell. Este livro não é sobre o pós-crash, sobre a América abandonada e pobre. Esse é só o tempo onde a história acontece. Mas a história acontece num sítio, na beira da estrada do tabaco, numa casa que pertence a uma família "enquanto se mantiver de pé". E essa família teve 17 filhos e só sobram dois. E nenhum os visita, nem nunca mais voltou a casa. Nesta casa sobram cinco pessoas sem traço de humanidade. E aqui que o livro se coloca. Na terra de ninguém onde não há comida, nenhuma, nem humanidade. Há apenas um feroz tom erótico que mostra a animalidade latente. E depois o nada. O único traço de amor é o amor de Jeeter, o pai, à terra. As personagens são feias, com deficiências físicas, a roupa prende-se ao corpo com cordas para que não se desfaça no caminho, a avó tarda em morrer, e há uma filha, a mais linda menina do mundo, que foi forçada a casar com Lov com doze anos e que sem dizer uma palavra, sem nunca aparecer em cena,  prova ter sido o último traço de humanidade a abandonar a casa em ruínas. De resto estamos perante monstros, animais esfomeados.
O livro passa-se em cinco dias apocalípticos. O leitor diverte-se com o excesso de desumanidade e logo depois sofre por ser incapaz. Por perceber que se são humanos tem de haver neles qualquer tipo de sofrimento. E esse sofrimento vem uma vez só. E ainda assim Caldwell faz questão de não o nomear. Porque aqui há cinco dias para deixar que o mundo acabe. E esperar que das cinzas, dos filhos que não chegámos a ver, da não memória que sobra da Estrada do Tabaco, sobre qualquer resto de humano. Mas, ainda assim, é só nossa a esperança. Nunca será essa a mensagem do Estrada do Tabaco. Aqui só sobra o silêncio e o som de uma buzina, insistente, ao longe, do carro que nunca mais voltará a assomar ao fundo da colina.

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