quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a genialidade

tudo o que aqui for dito a respeito da literatura é favor adaptar para a área que vos interessar. este blog só não se chama é estórias com outra coisa qualquer.

ando há uns tempos a pensar na genialidade. tenho chegado a algumas conclusões não muito pacíficas mas tentarei, como sempre, expor isto que penso da forma mais pacífica que existe, ou seja, soando a elogio a todas as partes para depois continuarmos todos amigos. não é fácil.
passo os dias todos de cabeça enfiada nos livros. e por livros leia-se cenas com folhas e coisas escritas, poderá até ser, como ontem no barco, um folheto do LIDL com umas cenas gourmet para o natal. tenho pouco tempo para tudo o que queria ler. andamos sempre a pedir uma entorce não dolorosa que nos mande para a cama de baixa para pormos algumas leituras em dia. não resulta. lembro-me a famosa frase que é tantas vezes referida na minha família "cuidado com o que desejas que pode acontecer-te". é verdade. fui lançada para um hospital durante vinte dias sem qualquer sintoma e nem uma linha li (se bem que não ter sintomas físicos é outra história mas avante). havendo pouco tempo tento sempre ler os melhores. e tento ler os melhores em todos os momentos que posso do meu dia. mas.
tenho encontrado na vida muitas pessoas que procuram a perfeição na leitura. uma perfeição certeira e subjectiva mas uma perfeição. recusam-se na sua maioria a ler livros que considerem comerciais, artificiais, e que sirvam outro propósito que não a arte da literatura. não podia estar mais de acordo. não leio livros maus, nunca, e desisto de livros a meio, mais vezes do que gosto de admitir. procuro o meu sítio certo da leitura, e está a ser tramado de encontrar, ando às aranhas.
mas não me identifico com a procura da genialidade. com o patamar onde às vezes subimos e não conseguimos descer. não quero subir a fasquia a um sítio onde grande parte dos livros que me foram importantes não caibam. acho que a qualidade literária se mede por faixas. quando começo a ler um autor encaixo-o numa faixa. se está numa faixa que considero má não o leio. um dia em que um autor suba de faixa é um dia feliz. no dia em que desce sinto-me desiludida como uma traição pessoal. aconteceu com paul auster por exemplo, desceu umas três ou quatro faixas.
no entanto eu quero que essas pessoas existam. esses leitores que procuram a perfeição. às vezes temos de sacrificar muito conforto para atingir um nível semelhante a esse. esses leitores sacrificam. conforto e amabilidade. tornam-se irritantes, roçam o pedantismo e tornam-se insuportáveis, na maior parte do tempo. como muitas vezes nos meus cursos disse relativamente a muitos livros, é importante que estes nos causem sensações extremas, seja de amor ou ódio. a indiferença perante um livro é a pior das leituras. e eu tanto odeio estes leitores como me apaixono tolamente por eles. e o que me apaixona é que eles sacrificam a amabilidade e o conforto mas eu aprendo com eles muito mais do que com leitores como eu. por isso deixem-se estar, irritantes, pedantes e insuportáveis. porque no dia em que acertam é mesmo no sítio certo. e isso é insubstituível. 

ai pá! adquirido.

Berkeley, California, otoño de 1980. En la cima de su carrera y después de años de negativas, Julio Cortázar acepta dar un curso universitario de dos meses en los Estados Unidos. Como cabía esperar, no se tratará de conferencias magistrales sino de una serie de charlas sobre literatura, y sobre todo acerca de su experiencia de escritor y la génesis de sus obras.

Las clases tratan gran diversidad de temas: aspectos del cuento fantástico; la musicalidad, el humor, el erotismo y lo lúdico en la literatura; la imaginación y el realismo, la literatura social y las trampas del lenguaje, todos ellos encarnados en lecturas y ejemplos tomados de la cultura universal. Las clases llegan a su punto máximo de interés cuando Cortázar, ya en la edad de los balances, se refiere a su evolución de escritor y analiza su obra: cómo nacieron los cronopios y cuentos insuperables como “La noche boca arriba” o “Continuidad de los parques”; el sentido de Rayuela y su proceso de escritura; el desafío de Libro de Manuel.

Quien lea la minuciosa y fiel transcripción de trece horas de grabaciones, al cabo de este encuentro con el Cortázar oral, valorará lo mismo que en sus textos: la soltura y cercanía, la vastedad de lecturas, la honestidad intelectual, la imaginación y el rigor de tamaño profesor. El Cortázar que nos quedaba por conocer, este que ya entra en el aula y sonríe.

as palavras que levam os leitores a este blog


 
que orgulho pá!
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ainda sobre o ser surrealista, que não se escolhe, é-se, como dizia o outro

A actividade surrealista não é como Jorge de Sena quer (e outros também) uma simples libertação de coisas que chateiam, mas um golpe fundo, e de cada vez que é dado na realidade presente. Não é mero exercício para se dormir melhor na noite seguinte, mas esforço demoníaco para se dormir de maneira diferente.
António Maria Lisboa



Porquê a adesão ao surrealismo? Porque ao sórdido amor mesa-de-família-cama-de-casal e às convenientes - e, muitas vezes, adversárias - instituições que o servem e que serve, oponho, tanto em mim como nos outros, a feroz realidade do DESEJO.
Alexandre O'Neill

em centrifugação literária

cen·tri·fu·ga·ção
(centrifugar + -ção)
substantivo feminino
Separação dos elementos de uma mistura pela aplicação da força centrífuga.

domingo, 27 de outubro de 2013

"Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luís José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego... Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma...) também já por cá passaram...) Viram? É horrível!... A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho... Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola."

(Alocução de Luís Pacheco numa conferência pública)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

a despedida do livreiro velho

hoje em setúbal o assunto era o mesmo - o que tu querias ou pensavas ou dizias. rimo-nos e deixamo-nos no abraço. falámos sem constrangimentos. ouvimos a fátima a fazer planos devagar, mas sem medo. o dia mais triste de outono foi tudo menos o final de algum ciclo. sim, manuel, tens razão, tiveste um fim de vida incrível. e de certeza que adoraste a tua despedida. saímos de lá com ideias e com a reformulação das tuas. saímos de lá com histórias e memórias. eu saí de lá mais família, mais livreira, mais amiga. sinto-me estupidamente sortuda por ter feito parte disto. um velório é triste triste triste. espero que sejam todos como o teu. houve alguma coisa que começou hoje, na tua despedida. e poucas pessoas teriam conseguido isso, mas de ti, não me surpreende.


perder um amigo como quem perde parte de todos os quotidianos





a primeira vez que vi o manuel foi à porta da Culsete. ele olhou para mim com aquele ar malandro e disse "ah tu é que és a rosa!" e eu disse "e tu é que és o livreiro velho.". a primeira de muitas visitas ao manuel e à fátima, em poucos anos, que parecem mesmo poucos.

a última vez que o vi foi em casa dele. sentámo-nos no meio dos livros e falámos um bocado. falámos de surrealistas e da leitura, como sempre. falámos de como era importante não deixar cair o Dia da Livraria e do Livreiro, não sabendo ele que era nesse dia, 30 de Novembro, que teríamos uma grande homenagem preparada.
tenho poucas palavras e sei que com o tempo terei muitas. desde que soube que ele estava pior e que teria pouco tempo que me tenho lembrado de muitos episódios. há um que é para mim o mais bonito e que tenho de falar aqui. o manuel foi o primeiro a ligar-me quando saí do hospital na véspera de Natal. disse-me que uma vez, das muitas vezes que já tinha estado internado, também tinha saído naquele dia. e disse-me que no final não eram as más memórias que interessavam, era o voltar para casa.
o manuel era e é imortal, ia sempre sobrevivendo e nós íamos rindo com ele. ele que dizia e garantia que já tinha estado morto umas três vezes mas que pregava sempre partidas ao destino. há notícias que não acreditamos que cheguem nunca, esta era uma delas.
agora quero ir para setúbal dar um abraço à família-maravilha. porque hoje não há outro sítio para estar.






terça-feira, 22 de outubro de 2013

o primeiro livro do LEVA seguiu!

prontíssimo, o nosso primeiro livro. e quando os outros quinze estão a trazer tantas dificuldades este é mesmo um grande feito.
obrigada Orfeu Negro por terem percebido sem qualquer dúvida e cheios de fé o nosso objectivo e terem cedido os direitos de olhos fechados, e obrigada Kisiwane Productions por um trabalho de uma qualidade muito acima da imaginada, um profissional medalha de ouro!
e claro, obrigada às dezenas de voluntários que estão a postos. espero dar notícias ainda esta semana. bem haja a vocês todos.

+ surrealismos





com amigos como o sr. teste e a querida Fátima que tanto entusiasmo me mostrou ao falar dos nossos surrealistas, é mesmo fácil fazer tudo pelo caminho mais incrível. isto está tudo a ser incrível.

merci

de um amigo, tudo em letras maiúsculas


o problema das obsessões quando não há material a pulular que nem cogumelos que nos alimente a doença

ando com os surrealistas e os malditos na cabeça. penso nisso muitas vezes por dia, no que eles significaram e querem dizer com o que afirmam. passaram, de alguma forma, a fazer parte do meu raciocínio. quando na pó dos livros comecei a falar deles percebi que falar para um público que nunca ouviu falar desta forma de pensar surrealista pode ser mais desafiante do que se possa imaginar. é preciso mesmo ver-nos de fora, limpar a cabeça do conhecimento e dos trágicos pré-conhecimentos que transformam em óbvias ideias que são tudo menos isso. claro que adoro que surjam dúvidas e questões, prefiro-as aos olhos incrédulos e desconfiados. daí até gostar do "anónimo" deste blog que gosta de provocar.
comprei ontem, na pó, este livro. não adoro o autor mas adoro o tema. e até me daria gozo discordar de algumas coisas que ele diz. uma obsessão é isto mesmo. ler tudo. o bom e o mau, porque nem sempre se aumenta conhecimento com o acordo. vamos lá ver. seja como for, fala-se pouco de ser maldito. darei retorno desta leitura em breve.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

filmes livros e salamandras - o novo projecto e o novo pedido de ajuda

a salamandra dourada é um espaço único que descobri há poucos meses e que me acciona aquela corrente eléctrica que me faz ir aos meus arquivos mentais encontrar projectos pendentes que assentassem neles. nada mais fácil uma vez que a salamandra recebe-nos de braços abertos e faz-nos sentir que a nossa ideia é mesmo a ideia que eles estavam à espera que chegasse.

foi então que recuperei o projecto do cineclube literário. parece pomposo e chato mas não é. eu afirmo que não é. não é. até porque pouco existe e aqui nasce o pedido de ajuda.
passo a explicar:
a ideia é fazer um ciclo de filmes relacionados com a literatura com toda a abertura que isso permite. filmes documentais sobre escritores, filmes relacionados com temáticas vizinhas ou irmãs da literatura. preferia, e apenas para não abrir o leque à exaustão, que não fossem filmes adaptados de livros a não ser que a temática o justifique. depois, no dia em que víssemos o filme, haveria um evento (e aqui o leque é infinito) relacionado com algumas das linhas do filme.

tudo por decidir portanto. eu tenho alguns filmes e eventos na calha. e como gosto pouco de fazer projectos sozinha deixo-vos aqui o apelo. e por sozinha estou a ser relativamente injusta. para além de um amigo com paciência infinita para os meus desvarios, estou em contacto e dinâmica directa com a salamandra. mas ideias não são demais, e do nosso brainstorming sairão certamente uns três a quatro anos de ciclo de cinema.

haja saudinha.

por isso amigos está lançada a ideia. aqui, no facebook, no e-mail, no mundo, no cais do sodré, em cafés, no meu sofá a ver filmes, ajudem-me. digam-me filmes que se lembrem, sugiram eventos que se relacionem, vejam filmes comigo. eu faço as pipocas. o micro-ondas faz as pipocas. eu carrego no botão.

o meu, como sempre, humilde agradecimento. sois os melhores do mundo. bem hajam.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

hoje


I Encontro Os livreiros e o seu património

Daniel Melo e Nuno Medeiros têm o prazer de vos convidar para o I Encontro Os livreiros e o seu património, no qual intervirão Fátima Ribeiro de Medeiros (docente e investigadora de literatura, mediadora e animadora de leitura na Livraria Culsete, Setúbal) e Pedro Oliveira (livreiro e alfarrabista, ex-livreiro da Livraria Sá da Costa).

Luís Bernardo (subdirector do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa) apresentará um número da revista Cultura com dossiê sobre a edição e o seu património.

O evento visa contribuir para a preservação, estudo e divulgação da memória e património dos livreiros e da edição portuguesa do período contemporâneo.

O Encontro é promovido pelo Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa com o apoio da Biblioteca Municipal Camões e da Livraria Culsete.

O Encontro decorre na Biblioteca Municipal Camões, em Lisboa, no dia 22 de Outubro, terça-feira, às 18h15. Eu vou!


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

sobre o surrealismo

A poesia não necessita de "ser salva" porque o que nós entendemos por poesia não necessita de espécie alguma de salvação. Todo o acto de revolta ou de rebeldia, todo o processo de violentar "a natureza" e de desconhecer o direito e a moral é para nós poesia embora não se plasme, não se fixe, não se possa generalizar - e aqui está, implícita, a recusa terminante de amarrar o poeta a uma técnica, seja ela qual for, mesmo a mais actual, a mais opurtuna, porque, precisamente, o que o distingue do homem da técnica é um sentido de não oportunidade, de inoportunidade, que lhe advém de uma clarividência total e duma insubmissão permanente ante os conceitos, regras e princípios estabelecidos. Com isto não queremos dizer (Deus nos livre!) que o poeta seja um louco, um visionário, mas que, se ele tem de possuir uma estética e uma moral é, sem sombra de dúvida, uma estética e uma moral próprias.
Pedro Oom

“[o surrealismo] nunca vai acabar. Quem leu o André Breton com atenção percebe isso, não só não vai acabar como não teve começo. Claro. A investigação do Breton na literatura e na pintura refere os povos primitivos, os quadros de areia dos índios, as pinturas rupestres, de uma maneira que influenciaram muito depois a chamada arte moderna. A única coisa que o Breton fez foi reunir numa espécie de teoria, ou de filosofia ou de bloco, o que parecia que ao longo dos tempos não fazia sentido. Numa altura chamou-se Romantismo, depois noutra altura chamou-se não-sei-quê, depois outra coisa... Ainda há e há-de haver sempre Surrealismo” 
Cesariny

A actividade Surrealista não é [...] uma simples acção libertadora das coisas que chateiam, mas um golpe fundo de cada vez que é dado na realidade presente. Não é de facto uma simples purga seguida de um dia de descanso a caldos de galinha mas revolta permanente contra a estabilidade e cristalização das coisas. Não é um mero exercício para se dormir melhor na noite seguinte, mas esforço demoníaco para se dormir de maneira diferente.
António Maria Lisboa

O único fim que eu persigo / é a fusão rebelde dos contrários as mãos livres os grandes transparentes.
Cesariny

terça-feira, 8 de outubro de 2013

boris vian oh boris!

o boris não anda perdido. nem esquecido. sou indesistível até à exaustão (normalmente dos outros).
estive em Edimburgo, este ano, no Fringe Festival. há qualquer coisa no Fringe, não sei se a dimensão se o espírito se a variedade contagiante de artistas que me fez pensar muito nisto. na falta que me faz saber ser criativa e saber usar um palco. claro que me lembrei do meu boris e da forma que ele já tem na minha cabeça, o princípio, o fim, o cenário, a roupa, a música. 
há também qualquer esperança estranha no Fringe (ou nos "meus" no Fringe), como se ali houvesse uma possibilidade qualquer de este espectáculo existir. não lá, claro, mas existir. desde aí que tenho estado a pensar. a imaginar. a com a esperança na possibilidade vem o pânico (que neste caso já não é novo) de ter a certeza que sou a pessoa que está atrás dos livros e não em cima deles. de ter a certeza que este espectáculo tomou uma importância tão grande na minha expectativa que não vou poder partilhá-lo com ninguém em palco porque não me posso decepcionar mais com quem é desistível. e assim começou-se a formar no meu quotidiano um espectáculo. sozinha, sem representar boris mas falar de boris. nos anos 50 do boris. mostrar que boris é irrepresentável mas absolutamente legível enquanto figura e enquanto texto. pegar na cabeça dele e na música dele e na poesia dele e pô-la em texto. 
não tenho palavras para o pânico. e para o entusiasmo. e para o amor a isto. nunca vou dizer que isto existirá muito menos na forma (ainda mais complicada) em que me voltou o boris de Edimburgo. mas é uma forma e será sempre a mesma forma de mostrar que não tenho apenas um molde. que estar atrás dos livros é o meu espaço de conforto mas talvez não o único espaço. 
a procura de espaços de trabalho é talvez o meu único vício e o mais venenoso. mas ao mesmo tempo tão pele como estar aqui a escrever um texto sem muito sentido num blog que se habituou a alguma assertividade para mostrar que não sou nem ponte nem alcatrão. serei um molde que ainda não está feito e nesse dia o boris vian terá um espectáculo que ainda não existe. mas que já tem forma. e arriscando-me a já ser pirosa até ao limite do tolerável, tenho vários fogos de artifício dentro do estômago. 

I'm back


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

na Pó dos Livros, num dia surrealista - os artistas

joão oliveira
joana marques
manuela fabião
vera pinto basto
helena marteleira
lúcia lemos
anabele bernardo
josé ricardo
ana gabriela pereira
maria joão marques
fernando marques
graça franco
diana pais
joana ribeiro
joão branco
catarina nabais
andreia moreira

os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (VII)






os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (VI)

o início de um poema é possivelmente o mais desinteressante era aquela conversa de café, as banalidades de outro dia igual, as queixas do costume, os planos nunca concretizados os desejos deverá haver um bom sentimento antes de vos ter era incompleta depois irei a correr até ver o sol nascer momento de libertação olhando o infinito e o universo inteiro e vasto, feito também dessas desilusões e efeitos especiais é o que se espera. Mas não estou para isso porque não quero partir, a mudança assusta e a rotina conforta. mas o arrependimento, esse, impele a agir, a deixar marca magia como milho cozido entre as tuas pernas, pele de pêssego mas também marmelo e avelã. aliás, toda ela era uma orgia de frutas... aquelas que são mais doces e ficam com o sabor no céu da boca a conversar com o palato. mas agora deixa-me degustar este copo de vinho e pastéis de bacalhau com sabor a colher de pau! o marx queria ter um fax que insiste em não chegar. horas e horas à espera de notícias que não chegam. passam os segundos, os minutos, as horas em que leio os pensamentos daqueles que não amam, como se eu fosse um débil mental.

os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (V)

ela disse, muito assertivamente, dobras e colas por baixa estatura mas com uma certa pinta. foram passear mas ele, presunçoso e gabarolas, afastou todo o interesse que ela pudesse sentir por ele e foram embora tristes, tropeçamos provavelmente na ternura dos dias quentes e doces dias desejados há muito, mas que ficaram longe de trás para a frente, ou até a fazer o pino! e depois, meu estupor, tu que bates à porta às 3h da manhã, seu poço de vícios, que monopolizas tudo em teu redor e róis maçãs de forma ordinária, ou não, o que me interessa é senti-lo, apalpá-lo, lambe-lo, saboreá-lo, comê-lo, devorá-lo!!! e nós? e apesar de tudo isto, tenho cera nos ouvidos e apetece-me comer penne. rigatti ou argamassa do exército, como lhe chamava o velho hábito de comer tudo até rebentar e sentir a enorme culpa. por minha culpa. por minha tão grande culpa. perdão.
amen.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (IV)

e se fosses dar uma volta?
todas as mãos e o oscar wilde.

voulez-vous coucher avec moi, ce soir?
é uma pastilha elástica.

porquê fazer perguntas?
isso e muito mais.

porque é que é obrigatório olhar as pessoas nos olhos quando estamos a falar com elas?
não sei.

vamos evoluir para quê?
porque gosto de a sentir a percorrer-me o rosto.

o que é isto?
vou quando eu quiser.

a que cheiram os dias cinzentos?
foi a água que correu muito depressa.

quer um sumo de laranja?
ela quer um cigarro.

os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (III)

se eu fosse feliz no futuro as frases seriam todas no passado.

se me vires irás fotografar muitas mãos em cola.

quando é que isto começa? completaremos o dia.

se tudo termina sairei correndo pela rua.

quando o vento sopra haverá chuva.

se chover, amo-te. será no dia em que chegaremos à lua.

se o sol conseguir chover para o ano irás a paris.

quando a chuva parar o mundo acabará em mel.

quanto te vieres avisa! iremos a paris. e depois, meu caro, comeremos o mundo inteiro às dentadas.

se o gato esconder o nome escreverás sempre o tempo verbal errado.

os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (II)

quando espreito atrás da porta digo-te o segredo.

e se afinal? vamos continuar a existir.

quando ela põe o vestido azul conta uma história com um tom de amarelo.

quando o mar estiver vermelho o futuro não existirá. mas um dia hei-de lá chegar.

se estiver alguém à minha espera a vida será amada.

quando eu crescer, um dia gostaria de voar.

quando me sento no sofá se calhar vou ficar confortável. e quando o lobo mau chegar diz-lhe que fui dar uma volta... mas não demoro ok?


os cadáveres esquisitos escritos na Pó dos Livros, num dia surrealista (I)

o que é o saber?
deus esqueceu-se de programar o despertador.

como ficas depois de dormir?
vai pró caralho.

quem somos?
é um túnel sem fim.

o amor perfeito?
talvez.

conseguirá o mundo livrar-se de mim?
muitas vezes ele chora.

e depois! quem és tu?
nem por isso...

porque me sinto tão mal?
bom gosto.

porquê agora?
porque sou mesmo assim.

oh rosa! vamos sair hoje? como se não houvesse amanhã?
está debaixo do teu pé.

a que horas ficas cansado?
claro que sim meu amor, a partir de hoje todos os pasteis de nata serão azuis.

como é que vais lá ter?
porque não aceito.

o dia em que a minha malta parou um bocadinho de me ouvir para começar a escrever textos








os cadáveres esquisitos

hoje foi o dia do curso em que foram todos surrealistas.

jogar com o acaso objectivo, definição de Breton, significa retirar da formação da obra de arte toda a racionalidade. juntar ao acaso perguntas e respostas, juntar palavras recortadas ou fazer cadáveres esquisitos em papel significa deixar que a nossa razão esquartilhada crie obras de arte que, após completas e já sem rasto da forma como foram feitas, possam trazer ao leitor sentidos que na verdade não possuíam. porque se os surrealistas conseguem ou pretendem conseguir afastar a razão da construção artística os leitores não têm de o fazer procurando e encontrando esse mesmo sentido, que poderá ser diferente para cada um. a arte surrealista multiplica-se assim em diversos sentidos conseguindo uma consistência maior do que uma arte pré-concebida através de pré-conceitos. assim o objectivo surrealista é cumprido - encontrar uma realidade para lá da realidade formatada em que vive a nossa razão.

hoje foi o dia de pormos mãos à obra na Pó dos Livros. os próximos posts do blog serão os textos que saíram dali. são incríveis. foi uma grande noite.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Curso de Surrealismo Português

Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António...