segunda-feira, 30 de setembro de 2013

escritores malditos

andam na boca do mundo. é uma nova polémica. diz-se que os escritores malditos existem como uma nova forma de se promoverem. que a atitude controversa existe para vender livros, para aparecerem nas primeiras páginas dos jornais e para terem o nome na boca do mundo.
acho tudo isto um absurdo. um escritor maldito é-o por convicção, por forma de estar. não porque decidiu sê-lo ou porque os seus objectivos definiram esse caminho.
cesariny dizia sobre os surrealistas que ninguém decide ser surrealista, é-se surrealista. e ser surrealista é ter a postura do escritor maldito. é ser livre de convenções, de preceitos esclerosados, de ideias feitas, de preconceitos literários. é retirar o mais possível a acção da razão sobre a obra de arte se entendermos a razão como a operação racional que busca estas amarras literárias e sociais por forma a que o que escrevemos encaixe numa determinada aceitação.
por norma, e aqui já não falamos de características deles próprios, o escritor maldito vive mal, é mal aceite, pouco lido, passa fome e não procura que a sua obra o recompense financeiramente (o que não quer necessariamente dizer que não quer que a obra chegue ao público).  
falo de escritores mas podia falar de artistas no geral. temos poucos artistas malditos hoje em dia. artistas que apenas com o tornar a obra pública nos incomodem e nos tirem do nosso espaço de conforto exactamente por não nos permitirem colocar aquilo a que assistimos em nenhuma das nossas "caixas". cada vez mais nos habituamos a colocar tudo em caixas, modos de vida, ambições, relações humanas e amorosas, trabalho, futuro, arte e literatura. é uma doença da vida moderna. e é difícil sair desse quadrado.
infelizmente temos poucos artistas que o consigam fazer. hoje estamos dentro das caixas. talvez seja porque a seu tempo poucos os conheçam, mas duvido que seja por isso. a lógica de mercado é radical e muitos dos que querem afirmar-se como malditos são apenas réplicas de artistas que em tempos viveram à margem. artistas que escolheram viver assim. e lá está, não se escolhe ser maldito, é-se maldito. e o nosso mundo cultural está desesperadamente a precisar de uma revolução maldita.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

o nosso poeta

o meu primeiro poeta que morreu foi o antónio gedeão. é verdade. eu era pequena e adorava-o, andava com ele para cima e para baixo, achava que ele tinha um poder qualquer de me dar respostas quando eu andava desorientada. quando ele morreu eu tinha 15 anos e chorei a noite toda. eu era uma bomba emocional na altura mas aquilo custou-me como se o conhecesse. era uma relação de intimidade e proximidade que só se tem com os poetas.
hoje foi o dia do ramos rosa. tive desde muito cedo também uma relação de intimidade com este meu poeta. o meu primeiro blog de poesia tinha o nome de um verso dele. citava-o sempre em ocasiões que parecia que não era ele quem se esperava. aproximou-me de muitos amigos que o conheciam como eu. foi o primeiro livro que me angustei de ter perdido e que era um livro de um equilíbrio perfeito, Viagem através duma nebulosa. os livros dele foram das melhores prendas que fui recebendo sempre em dias importantes. há sempre qualquer coisa que vai com eles, com os nossos poetas que não ficam. secam as palavras, as deles e as deles nos nossos olhos. a obra cristaliza. fica a poesia que se desmultiplica. deixou-nos dezenas de livros, um deles perfeito. é, para mim, o maior legado. deixo-vos o poema dele que muitos dias me ecoa na cabeça. foi meu muitas vezes e oferecido por ele a mim e por mim a tantos.

perdoem-me se puderem o excesso de emoção, mas há poucas outras formas para dias como o de hoje.

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol. 



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

love love love

está decidido só volto a dormir domingo à noite. in love pelos surrealistas e atolada neles até ao pescoço.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

do documento à ficção real

Autismo
Valério Romão
Abysmo

cada vez que escrevo sobre um novo livro penso numa questão que tem sido fundamental em muitas discussões que tenho tido sobre isto de "avaliar" ou até apenas "gostar" de um livro. quando leio um livro leio-o dentro de um contexto próprio e em categorias não claramente definidas mas que existem. autores com pouca obra publicada é uma dessas categorias. gosto de ler e acompanhar novos autores para adivinhar o que prometem, o que trazem de novo, se têm ou não medo de influências (têm quase sempre). o valério romão é um desses novos autores. tem dois livros publicados. já aqui falei do segundo, agora li o primeiro, o Autismo.
a primeira sensação que tive ao ler o Autismo foi de alguma asfixia. percebemos a tragédia tão cedo como percebemos n'O da Joana e há ali um sentimento de ligação e de ponte que se torna irrespirável, logo nas primeiras páginas. não fossem parte de uma trilogia chamada "paternidades falhadas", que claramente testam os limites dessa mesma paternidade, e seria de questionar de forma mais profunda a necessidade desta ligação à tragédia.
não vou falar de forma convencional do Autismo, vi antes de ler demasiadas referências que me deixaram a leitura suspensa. por isso vou apenas pegar no lado documental do livro que, a meu ver, ganha em dois pontos muito fortes. por um lado o autismo, essa doença que não é doença, essa perturbação do comportamento que tem tantas variantes que se torna indefinível. este livro documenta o autismo em primeiro lugar textualmente, com algumas referências claras e fundamentais para quem quer conhecer a doença e, depois, é fundamental sabermos que o autor experienciou esta realidade, o que torna o livro, em absoluto, credível. no entanto é exactamente nessa credibilidade que o livro fere mais e nos faz ter a necessidade de relembrar, em todos os momentos, que não estamos perante uma reportagem sobre a vida do autor. e não queremos estar, pedimos para não estar tal é a violência do que é dito.
é muito comum assistirmos a uma grande dificuldade em assumir que aqueles que amamos muitas vezes nos cansam, complicam a vida. é difícil viver com essa aceitação, a culpa que nos é imposta, a ideia de que não nos devemos queixar, e que, como marta (a mãe) no romance parece acreditar, ou se ama a pessoa por quem aparentemente nos sacrificamos ou vivemos em sacrifício por ela. rogério, o pai, mostra o contrário, põe a nu o sofrimento e os "ses", e o que é mais interessante no livro é ver que não o faz para nós, fá-lo em privado. para a mulher, para um blog que ninguém sabe que escreve, para si próprio, para o pai. conseguimos perceber que o rogério, ao contrário da marta, avalia as imensas possibilidades que existem para além do henrique, o filho, numa desesperada procura de redenção e sobrevivência. rogério só quer estar à tona de água. é uma personagem ambígua e obscura, com uma forma que se vai desenhando dolorosamente até ao final.
e, segundo lugar, este é um livro que não documenta só o henrique, documenta o rogério e a marta. coloca em discurso directo questões que nunca são do domínio público e que ninguém conhece estando do lado de fora. mostra como o sofrimento profundo e a falta de esperança, quando chega ao limite, não procura ninguém que esteja fora desse mesmo caminho. a energia da marta não se pode dispersar. a do rogério também não. e não estão aparentemente (ressalvo o aparentemente) no mesmo sítio.
este é um romance poderoso. tive com ele semanas difíceis em que me foi difícil virar as páginas. tive com ele uma relação de angústia e violência. é um romance obrigatório para quem não tem medo da verdade. é a ferida que realmente existe neste romance - por mais que tentemos fingir e procurar zonas de conforto, este romance está pejado de verdade. e se o rogério e a marta não têm direito a zonas de conforto, nós também não podemos ter, não enquanto lermos a história deles. e a respiração demora a voltar mas com ela volta uma maior empatia com tanta gente que precisa dela. este romance cumpre assim o que para mim deverá ser um dos mais importantes objectivos da literatura - abrir as nossas janelas e tornar-nos empáticos com os outros, aqueles que normalmente vemos rápido passar por nós e nos esquecemos uns minutos depois.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

o que é o surrealismo?

"Como definir esta originalidade, este novo estado de espírito que permitirá a estes temperamentos tão diversos comunicar na mesma aventura? O que é ser surrealista? Breton responde: 'Durante séculos ainda, será surrealista em arte tudo o que, por caminhos novos, visar a uma maior emancipação do espírito.' Isto significa, de imediato, um ataque em regra contra a lógica, a moral e o gosto."


O Surrealismo
Gerard Durozoi e Bernard Lecherbonnier
Livaria Almedina, Coimbra

ainda falta uma semana e há muitas inscrições!


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Congresso Nacional "Surrealismo(s) em Portugal. Nos 60 anos da morte de António Maria Lisboa"

No sexagenário da morte de António Maria Lisboa, um dos principais nomes do Surrealismo em Portugal, o CLEPUL, a Galeria Perve e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes promovem um Congresso Nacional dedicado à exposição do percurso do Surrealismo em Portugal, num debate que contemplará uma reflexão alargada que se estenderá dos precurores e influências nacionais e internacionais ao itinerário dos grupos surrealistas em Portugal, à discussão da relevância do termo “Abjeccionismo” e às heranças surrealistas em Portugal.

O Congresso decorrerá nos dias 19 (Galeria Perve) e 20 a 22 (Anfiteatro III da FLUL) de Novembro de 2013. As inscrições (20 euros) estender-se-ão até 15 de Novembro de 2013, podendo quem o desejar fazer uma pré-encomenda das actas (50 euros no total), por via do email do CLEPUL (clepul@gmail.com).

Estarei por lá numa das mesas, mais notícias em breve!




Três Marias