quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Hospital III: é quase Natal e não está frio e lá fora ainda se vê o rio

Pois é. Às vezes há tanto que tomamos por certo, tanto do nosso quotidiano que tomamos por certo, que já não sabemos o que fazer aos dias se eles não forem nossos. Depois percebemos que eles são de outras pessoas, de outras descobertas, de outros sub-textos que não sabemos ainda que existem. No dia antes de vir para aqui não pedi só para ficar uns dias sem trabalhar. Pedi uma hipótese de parar. De pensar, de pensar outras coisas. De perceber. Uma hipótese de perceber. Nem sabia bem o quê. Porque no atropelar dos dias nunca há hipótese de parar. De me sentar na beira da cama de manhã a ver o rio e pensar janela a janela quem está lá por trás a trabalhar, a acordar.E o Natal é qualquer coisa que nunca soube bem o que era mas que sempre gostei tanto. E agora só me deixam sair daqui o tempo certo de ser muito feliz no Natal. E não é porque saí daqui. É porque vou ter com as minhas pessoas. E porque não há hipótese de isso não ser absolutamente brilhante. E quero fazer coisas que sempre fiz sem ponderar nada. Descer a rua a pé. Beber um café numa esplanada. Correr muito no Samouco até ao rio. Pegar nas crianças e dizer-lhes que ao Natal nunca se falta, como lhes foi prometido. E fazer sonhos com a minha mãe e dizer-lhe que nem me importo de voltar. Que falta pouco para sermos nós outra vez.
E portanto a partir de agora vai ser diferente, minhas caras e meus caros. Não me vou queixar mais. Os meus olhos abriram-se à volta da cabeça e vêem mais longe. E hoje enfeitámos a enfermaria com o T. e a I. e olhamos à volta e é Natal. E à noite a D. trouxe-me sushi, a I. a sobremesa, as amigas trouxeram o Natal ao átrio do elevador. E todos os dias a minha "sala de estar" fica cheia de gente. E preparam-se todos para a minha saída. E o tão ansiado regresso. E são tanta pessoas que todos os dias vão ligando e aparecendo, inês, rita, ana, joana, hugo, lídia, patrícia, nuno, leandro, mãe, pai, mano, avó, raquel, duarte, leonor, afonso, luísa, joana, vera, eurídice, sandra, tiago, francisca, francisco, ricardo, catarina, mário, tia, tio, hipólito, fernando, maria joão, luís, rita, diana, tiago, ricardo, maria, hugo, sara, hugo, sara, joão, célia, sara, inês, miguel, jolanda, ariana, sara, antónio, rita, luís, hugo, ricardo, maria, vanda, carla, sebastião, jorge, ana, carla, lúcia, maria, pedro, catarina, alfredo, maria joão, verónica, ana rita, bruno, tiago, césar, joão, sophia, rita, cristina, vítor, nuno, maria joão, jaime. E tantos mais.
A vocês o que vos desejo a todos é que vejam sempre outras coisas. Sem pressa, nem medo. Para mim foi assustador perceber que aquilo que tomava como certo não era certo. E falo das coisas mais simples mas também posso falar das outras de todos os dias. Mas é bom e vale por tudo. Porque o meu corpo ocupa esta enfermaria toda e, graças a vocês, a maior parte do tempo, sinto-me uma super-mulher. Não há ninguém em lado nenhum como vocês.

1 comentário:

Pó dos Livros disse...

Bonito texto. Força. bjs

Jaime

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