sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

(ontem passei a noite a ler Al Berto. Hoje sou um bocadinho melhor)

corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Curso Literatura Portuguesa séc. XX

Livraria Trama
Rua São Filipe Nery, 51-A (perto do Largo do Rato)
Inscrições para livraria.trama@gmail.com ou rosa.b.azev@gmail.com

17 Jan a 7 Mar 2011
(todas as 2as feiras à noite)
21h às 22h
65€

PROGRAMA

17 Janeiro
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo
24 Janeiro
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura
31 Janeiro
surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny)
7 Fevereiro
surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'Neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)
14 Fevereiro
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira).
21 Fevereiro
anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o Existencialismo.
28 Fevereiro
nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras
7 Março
balanço

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Alexandre O'Neill

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os Mal Comportados

Cesariny
Rimbaud
Mário Henrique Leiria
Luiz Pacheco
Henry Miller
Sylvia Plath
Antonin Artaud
Hunter S. Thompson
Bukowski
Boris Vian
Dorothy Parker
William Burroughs
Samuel Beckett
José Gomes Ferreira
Almada Negreiros
Alexandre O'Neill
Jack Kerouac
Oscar Wilde
Jonh Fante
Pier Paolo Pasolini
Marquês de Sade
Mallarmé
Anais Nin
Dinis Machado
Harold Pinter
Machado de Assis
Irvine Welsh
Dostoievski
Brecht
Tony O'Neill
Lydia Lynch
Cortázar
Kurt Vonnegut
Flannery O'Connor
Verlaine
Byron
Shakespeare
Allen Ginsberg
Simone de Beauvoir
J. L. Borges
Edgar Allan Poe
Jack London
Ary dos Santos
J. P. Sartre
Camus
Vitor Sanches
Gorki
Gogol
António Gancho
Herberto Helder
Niccolò Ammaniti
Dante
Rulfo
Mishima
George Orwell
Majakovsky
Jean Genet
Conde de Lautréamont

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Luiz Pacheco na Revista K - é imperativo ler!

"Luiz Pacheco, escritor, sofre de asma brônquica. Calvície precoce. Fractura do úmero devido a tentativa de suicídio na Av. De Berna. Queda de dentes natural quase total. Efizema pulmonar bilateral diagnosticado em 1958, obrigado a uso permanente de botija de oxigénio, à noite e ao levantar. Hérnias inquinais não operadas com uso de funda dupla. Hipersensibilidade ao álcool, o que o conduziu a uma fraudulenta fama de alcoólico incorrigível.
Tratamento de desintoxicação no Centro António Flores, ambulatório e dois internamentos. Miopia e astigmatismo, quase cegueira. Bissexual assumido. Leve surdez do ouvido esquerdo. Andropausa total. Três mulheres reconhecidas. Três estadias no Limoeiro: 1957, 1959, 1968. Duas estadias na cadeia das Caldas da Rainha: 1967, 1968. Prisões ocasionais e breves em esquadras da polícia. Autor, entre outros títulos, de: Literatura Comestível. O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. Exercícios de Estilo. Comunidade."

Tudo aqui.

A Literatura

Ontem disseram-me assim: A Literatura é o que eu gostar de ler.
Discutível, insólito, quase errado.

Mas eu roí-me de inveja.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O surrealismo português em apontamentos

  • 1942 - café Hermínius - fase dadaísta
  • 1944 - café Moderno
  • 1947 - café Mexicana
  • 1956 - café Gelo - fase Luiz Pacheco (Pacheco: "Dali não saiu revista, doutrina, escola que se aproveitasse. Então?! Havia, isso sim, um espaço de convívio em liberdade plena, feroz e mútua crítica.")
  • escola pouco definida - Cesariny tentou...
  • muita Poesia
  • produções colectivas
  • cadavre exquis
  • humor negro
  • absurdo
  • poesia plástica
  • imagens assentes na associação de realidades afastadas
  • transtornar a realidade para a transformar numa outra
  • importância do amor - amor louco, compulsivo, inconsciente
  • Ramos Rosa: "Por mais aleatórias e arbitrárias que sejam as imagens de um poema surrealista, não podemos negar que nelas se oculta ou se manifesta algo que não pode dar lugar a nenhuma especulação, algo que escapa a qualquer espécie de estruturação, algo que porventura é ilegível mas não inaudível, algo, em suma, informulável mas presente na vibração contínua da linguagem."
  • real liberdade de cada um consigo
  • escrita automática
  • colagem
  • inventário
  • fim do autor
  • poema visual
  • fim da ditadura da razão e dos valores burgueses como pátria, família, religião, trabalho e honra
  • ideias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas
  • arte é feita por cidadãos comuns
  • Maurice Blanchot: "há nele uma força maravilhosa, uma juventude ébria e poderosa"

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CURSO DE LITERATURAS AMERICANAS (agora à noite e agora na Trama)

com Rosa Azevedo e Nuno Marques
Livraria Tama, Rua São Filipe Nery, 51-A

Inscrições na Livraria ou para rosa.b.azev@gmail.com


de 22 de Novembro a 20 de Dezembro (todas as 2ª à noite)

21h – 22h

45€


PROGRAMA

22 Novembro
Literatura Hispano-Americana: abordagem histórica, Realismo Mágico

29 Novembro
Literatura Hispano-Americana: Cortázar, Rulfo, Borges, Sábato entre outros

6 Dezembro
Literatura Norte-Americana: A autobiografia como traço fundamental da literatura Norte-Americana desde o Puritanismo e a autobiografia espiritual até à Geração Beat.

13 Dezembro
Literatura Norte-Americana: Escrever na América é escrever a América. Os Estados Unidos enquanto obra de ficção e a literatura sobre o Oeste.

Escrever esta morada na barra de endereços para ter acesso aos conteúdos:

http://cursodeliteraturanorte-americana.yolasite.com/

20 Dezembro
Balanço


FORMADORES

Rosa Azevedo
Rosa Azevedo nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos de portugueses e franceses e minor em Literaturas do Mundo, e em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura dos quais se destaca o Curso de Literaturas do Mundo realizado de Novembro de 2008 a Junho 2009, em parceria com a Associação InterCultura Cidade e o workshop de Literatura Portuguesa do séc. XX na Livraria Trama, em 2010.


Nuno Marques
Após ter saído da Marinha Portuguesa onde foi tradutor e correspondente do jornal de bordo do Navio Escola Sagres licenciou-se em Estudos Norte-Americanos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tendo grande interesse pela obra da Geração Beat orientou o seu percurso académico para o estudo das obras destes autores do qual tem dado conta nos encontros anuais da Associação Portuguesa de Estudos Norte-Americanos. Foi bolseiro ao abrigo da Bolsa da Universidade de Lisboa / Fundação Amadeu Dias com projecto de investigação nesta área. Livreiro nos últimos anos, ganhou o prémio de poesia Jovens Escritores 2006.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

pudesse eu e estava lá caída


É tudo bom. É na Assírio. É o Mário Cesariny. É o Cabral Martins.


"A Fundação Luís Miguel Nava e a editora Assírio & Alvim convidam-no a assistir ao lançamento do número 26 da revista de poesia Relâmpago, que se realizará no dia 4 de Novembro, pelas 18h30, na Livraria Assírio & Alvim, Rua Passos Manuel, 67 – B.

Este número, que tem como tema central a poesia de Mário Cesariny, será apresentado por Fernando Cabral Martins. Os actores Eurico Lopes e Paulo Pires lerão poemas do poeta homenageado.

No final será servido um pequeno cocktail."

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Resolvi escrever sobre as casas. Tenho as palavras em ninho no corpo e o corpo em ninho dentro da casa. Mas se calhar ainda não é hora de escrever. É hora de pensar e fazer as pazes com a memória desta casa. Prepará-la para ser um lar dentro dos olhos. Ainda não amadureci a casa para que a escrita se abra em flor. Então espero que me falem de casas e já ouvi muito sobre casas. Mas não o suficiente. Quero encher um planeta inteiro de pensamentos sobre a casa. Quero pensá-las bem e quando as tiver desenhadas começo a escrever sobre elas.
Ainda não chegou a hora de escrever.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

o gasolineiro dos açores devorador de clássicos

Pronto, está uma pessoa a trabalhar nos livros a vida toda a tentar não ler pouco, a sofrer porque não lê mais e vai o Onésimo Teotónio Almeida de encontrar um gasolineiro nos Açores que lê mais e melhor que qualquer outra pessoa que eu tenha conhecido até hoje. E que lê porque isso lhe faz bem à alma. Só.
O senhor dá pelo nome de Ângelo Bento Melo e é uma delícia. Passo o preconceito de todos acharem que uma pessoa com a vida do Ângelo não lê. Mas já agora aproveito para passar o preconceito de que assim, ninguém lê. Mas que este lê, lê, nada no discurso dele nos faz duvidar. E tem uma lista com os Prémio Nobel e vai riscando os que lê. E já leu 21. E já leu muito mais e muito bem.
Estou encantada e comovida com o Ângelo. E com a chapada que o artigo me deu. Que eu sempre fui muito boa a receber chapadas e a saber aproveitá-las muito bem. Li o artigo (Revista Ler deste mês, imperdível como sempre) e foi logo um Borges e um Millas de seguida. Por causa das tosses...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

o primeiro já cá canta

CURSO
LITERATURA PORTUGUESA

com Rosa Azevedo

3ª feira
18h30 - 19h30

de 2 de Novembro a 21 de Dezembro

Preço: 50€

(inscrições até 30 de Outubro para rosa.b.azev@gmail.com)

Fábrica Braço de Prata

Este curso pretende debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista focando os principais movimentos e alguns autores. É um curso que se direcciona sobretudo a quem não é da área dos livros (ainda que todos os outros sejam bem vindos), tentado dar uma visão alargada do que se passou por cá no séc. XX.


PROGRAMA

1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo

2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura

3ª sessão
surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny)

4ª sessão
surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'Neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)

5ª sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira)

6ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o Existencialismo

7ª sessão
nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras

8ª sessão
balanço

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sala precisa-se!

E são dois cursos!
Aceitam-se sugestões de salas, uma qualquer onde caibam 15 pessoas que gostem de livros.
Qualquer sugestão enviem para mim: rosa.b.azev@gmail.com

CURSO DE LITERATURA
PORTUGUESA
com Rosa Azevedo

Este curso pretende debruçar-se sobre a literatura portuguesa do séc. XX, de um ponto de vista generalista focando os principais movimentos e alguns autores. É um curso que se direcciona sobretudo a quem não é da área dos livros (ainda que todos os outros sejam bem vindos), tentado dar uma visão alargada do que se passou por cá no séc. XX. O curso tem cinco sessões de uma hora cada uma e poderá realizar-se de 2ª a 5ª a partir das 18h30, com uma periodicidade a combinar com a sala que recebe o curso. O curso realiza-se com um número máximo de quinze e um número mínimo de sete participantes.

PROGRAMA

1ª sessão
realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo

2ª sessão
modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura

3ª sessão
surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny)

4ª sessão
surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'Neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)

5ª sessão
neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira)

6ª sessão
anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o Existencialismo

7ª sessão
nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras

8ª sessão
balanço

CURSO DE
LITERATURAS
AMERICANAS
com Rosa Azevedo e Nuno Marques

Este curso pretende debruçar-se sobre a literatura norte-americana e sul-americana do séc. XX, de um ponto de vista generalista focando alguns autores. O curso tem cinco sessões de uma hora cada uma e poderá realizar-se de 2ª a 5ª a partir das 18h30, com uma periodicidade a combinar com a sala que recebe o curso.
O curso realiza-se com um número máximo de quinze e um número mínimo de sete participantes.

PROGRAMA

1ª sessão
Literatura Hispano-Americana: abordagem histórica, Realismo Mágico

2ª sessão
Literatura Hispano-Americana: Cortázar, Rulfo, Borges, Sábato entre outros

3ª sessão
Literatura Norte-Americana: A autobiografia como traço fundamental da literatura Norte-Americana desde o
Puritanismo e a autobiografia espiritual até à Geração Beat.

4ª sessão
Literatura Norte-Americana: Escrever na América é escrever a América. Os Estados Unidos enquanto obra de ficção e a literatura sobre o Oeste.

Escrever esta morada na barra de endereços para ter acesso aos conteúdos:
http://cursodeliteraturanorte-americana.yolasite.com

5ª sessão
Balanço

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os tantos e tantas que falam de livros

Há por cá uma grande falta de pessoas que façam cursos de Literatura e que gostem de falar de Literatura. Falar de livros, só. E quando se fala, fala-se sempre de forma quadrada, controlada, académica. E esta abordagem terá sempre alguns fãs, claro. Eu não.
Anda aí um grupo literário / editorial / outros que faz cursos que custam dez vezes mais do que o curso que eu dei na Trama, o que fecha ainda mais o círculo e o público alvo. O que faz falta é falar a quem não costuma pensar e viver com os livros. É preciso que os livros saiam de vez do seu tétrico mundo intelectual para cair nas mãos de todos. E com isto refiro-me, claro, a bons livros.
Tenho as melhores e mais emocionantes experiências das vezes em que conseguimos falar verdadeiramente sobre livros. Falar de livros na mão. Livros e pessoas reais.
É preciso que exista também alguma emoção. Se não os livros deixam de fazer sentido.

Petersburgo de Andrei Bely

Um amigo disse-me há uns dias que andava aí em tradução inglesa recente um romance imperdível, o Petersburg de um escritor russo, modernista, nada conhecido em Portugal. Comecei logo em investigações (porque há pessoas que me dizem "lê" e eu, invariavelmente, leio), só havia na Amazon, em Portugal não se arranjava em lado nenhum. Pois fui surpreendida (e adoro estas surpresas, que de tão habituais quase já nem surpreendem) com a notícia de que o Hugo Xavier, ex-Cavalo de Ferro e com quem trabalhei aqueles tão bons três meses, agora editor da Ulisseia, do grupo Babel, vai editá-lo ainda antes do final do ano. Estou já em pulgas, é por estas e por outras que ainda tenho esta fé nos grandes editores que nós vamos tendo por cá. É que eles estão mesmo em todo o lado. E não lhes escapa uma...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Andamos rodeados de livros e pensamentos sobre a poesia quando a verdade pode ser tão mais esta

Hay en el mundo poetas que jamás escribieron versos. Y tampoco los leyeron. Poco saben de leer, y aún menos de escribir. Mi idioma ellos no hablan, pero nombran los pajaros las hierbas del campo... Con los árboles conversan, a su sombra agradecen y sus memorias escuchan.
Saben el rumbo del viento y el color de la lluvia, el tiempo de la sembradura y el tiempo de los frutos. Las huellas de las fieras reconocen y cuidan.
Nunca entraron en una iglesia. Rezan al sol y a la tierra, saben cantos de otras eras, pieles tocan y maderas. No hay cuerdas que no desvelen, sus ojos mirando en la danza no el cielo sino la arena.
Y cuando alfin acaban sus andares en los días, de todo se despiden sin amargura y sin pena. Sabiendo que serán tierra luz hojas semillas ojos de niños abrazos agua del río panteras.
Y los versos que escribieron son sus pasos en la vida, marcas que no tienen olvido.

Anna Fresu

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Finalmente nas mãos dos apaixonados do nosso Vergílio

Chega agora às livrarias o livro Promessa de Vergílio Ferreira, pela Quetzal, em edição crítica de Helder Godinho e Fernanda Irene Fonseca.
Mais um livro que levanta a velha questão discutida sem fim: até que ponto é legítimo editar um livro que um autor optou por não editar? Neste caso há alguns argumentos a favor da edição. Primeiro o autor deixou o espólio muito organizado. Como ele próprio disse, se ele não quisesse que as obras fossem descobertas tinha-as destruído. Como fez Santa-Rita Pintor. Ou tinha deixado instruções para que não fosse publicado. Acho que neste caso devemos ler este livro como ele é: um livro da sua fase pós neo-realista, em transição para o existencialismo (e só por isso é já um documento histórico), um livro que ele amou e depois considerou medíocre.
Não é o grande livro de Vergílio Ferreira, mas é um bom romance-problema. E nesta categoria mais do que ser o melhor, Vergílio Ferreira é único. Tem algumas frases de construção duvidosa e gralhas imperdoáveis numa edição de Helder Godinho, que, a querer manter o texto como o encontrou (o que seria estranho visto ele mesmo ter concluído que o texto que lhe chegou às mãos já teria sido copiado por um dactilógrafo) deveria ter assinalado as mesmas como já presentes no original.
No entanto nada mancha o facto de termos nas mãos do público uma edição crítica como única edição desta obra, o que em muito a valoriza. Normalmente as edições críticas só circulam dentro de um público específico. Aqui e com muito rigor qualquer leitor pode ter acesso a que palavras foras rasuradas, emendadas e acrescentadas pelo autor (entre outras particularidades do texto encontrado) numa terminologia definida pelos críticos Pessoanos. Essa riqueza de conhecimento à volta de um livro começa já a desaparecer com a escrita digital. Neste caso temos um texto dactilografado revisto e emendado pelo autor, sendo que todas as emendas são registadas no final do livro, o que simplifica a leitura.
Como dizem os editores na excelente introdução à obra, esta não é uma obra menor de Vergílio Ferreira nem deve ser vista como tal. É um romance de aprendizagem da personagem Flávio e um romance transitório para o autor. É um ponto a mais na sua obra, que não deverá ser, a meu ver, o romance de quem começa agora a ler Vergílio Ferreira. Mas isso digo eu, que procuro nos autores que leio um caminho ideal entre as suas obras, juízo que dificilmente seria mais subjectivo.
Concluindo: a ler, sim. É o veredicto final.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ai que eles continuam a fazer tudo bem

Alberto Manguel defende como ninguém a leitura. Vale mesmo a pena ler.

Todo o artigo aqui.

Mas nem toda a gente é leitora...
Nem toda a gente é leitora, mas acho que, no fundo, é porque as circunstâncias fazem que não sejamos todos leitores. A possibilidade está em todos nós. O que quero dizer é que suponho que há pessoas que nunca se apaixonam, suponho que há pessoas que nunca viajam, suponho que há pessoas que não têm uma certa experiência do mundo. E da mesma maneira, existem muitas pessoas que não são leitoras. Mas a possibilidade está dentro de nós.
A proporção de leitores numa dada sociedade nunca foi muito grande – seja na Idade Média, seja no Renascimento ou no século XX. Os leitores nunca foram a maioria. Se, por exemplo, todos os espectadores de um único jogo de futebol comprassem um livro, uma tarde, esse livro passaria a ser o best-seller mais espectacular da História da literatura.

Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.

É reversível?
Espero bem que sim. Mas receio que piore antes de melhorar. Falando apenas em livros e literatura, as grandes empresas internacionais tomaram posse da indústria editorial e transformaram o acto literário num modelo de supermercado. Mas continua a haver escritores, pequenos editores, há uma espécie de movimento de resistência – que também passa, por exemplo, pela tecnologia electrónica. Isso faz-me pensar que vamos sobreviver... mas não sei se o meu optimismo se justifica.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Leandro Morgado vence o 1º Prémio de Slam Poetry do Festival Silêncio

Durante o concurso de Slam Poetry, onde Leandro Morgado venceu de forma largamente merecida o 1º Prémio, pensou-se entre risos e disparates o que é Slam Poetry e o que é só a Poetry. A poesia pode dizer-se. Aqui não cedo. Toda a poesia pode ser dita mas de forma diferente, pensada e sentida de forma diferente. Eu sempre disse poesia, em caves de bares na Bica, no meu sótão em festas de anos, em galerias de arte em comemorações de dias especiais. E sempre disse mal, e nunca passaria nem à primeira fase de um concurso deste género. Mas "aquilo" funcionava. Porque as pessoas estavam ali para receber aquela poesia directamente da nossa voz. É uma questão de poesia.
Com o Leandro e o Slam Poetry do Festival Silêncio foi diferente. Ali tínhamos a poesia mais a forma como é dita. Tínhamos o texto e a performance. E foi imperdoável quem disse poemas sem a performance. E vice-versa. E se o Leandro não é o melhor dos poetas é o melhor dos escritores de comédia porque atinge, na mouche, todos os seus objectivos. Os textos do Leandro funcionam. E é isso a Slam Poetry - bons textos ditos de forma funcional (mesmo que a palavra seja feia). Quem passou no Music Box (ou quem viu o Status) sabe quem é a Alice em todas as suas variações, significados e intenções. Não deixou de ouvir, não se distraiu, não se esqueceu de que o Leandro estava ali a dizer um poema. E quis ouvir mais. Foi delicioso e como alguém disse, "faz lembrar o Mário Viegas, na sua melhor fase". Para mim que vivo com e para o texto escrito fico feliz que alguém o consiga fazer chegar tão rápido à nossa cabeça. Com deleite e sem esforço. Como o Mário Viegas fazia. Só de escrever isto oiço logo a voz dele em frases, tons, expressões que se tornaram inesquecíveis.
É preciso não deixar de dizer. E o Leandro diz, sempre, e nós ouvimos, sempre. É impossível sair do espetáculo Status sem comichão no estômago com a sensação maravilhosa de "é mesmo isto". Para não deixarmos de pensar nem nos deixarmos encadear em comboios monótonos. Ficamos à espera de mais.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A nossa Trama vai viajar! Sábado vamos todos despedir-nos do 25B.


Consumo mínimo 1 livro! Vamos "aliviá-los" da tralha dos bons livros e ajudá-los a abrir as portas rapidinho num sítio pertinho de nós.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sempre vivemos no Castelo

Este é um livro que nos envolve, que se mastiga lentamente. Num ambiente negro tão norte-americano duas irmãs e um tio doente vivem numa casa onde uns anos antes toda a família morreu envenenada. A questão não será nunca o descobrir o assassino da família, que se vai adivinhando desde o início, mas antes descobrir como as duas irmãs recriam o ambiente perfeito para uma vivência doce e apaixonante vivendo numa casa que, após uma noite trágica, anos depois da morte da família, se transforma num castelo solitário. Shirley Jackson é um nome a decorar.
O ambiente inicial faz lembrar outro livro da Cavalo de Ferro, dos livros mais fortes e perturbantes que já li, o Casa de Campo de José Donoso. Pode-se ler no site da Cavalo de Ferro:

Uma obra magistral, considerada uma das obras-primas da literatura sul-americana. Finalmente em português.

Ambientado no século XIX, este magnífico romance retrata os acontecimentos passados num dia muito especial de uma mansão senhorial. A ausência inesperada dos proprietários adultos origina que as crianças assumam o controlo da casa e, juntamente com os servos e indígenas que trabalham nas minas da propriedade, a transformem em domínio erótico e febril. Esta festiva irrupção de pulsões reprimidas propiciará uma ruptura radical com a ordem social e a instauração de um novo mundo mágico, anárquico, exuberante, mas igualmente doloroso.

Expoente máximo da narrativa latino-americana contemporânea, «Casa de Campo» constitui uma parábola moral sobre a sociedade humana, comparável ao famoso romance «O Senhor das Moscas» de W. Golding.

Uma alegoria da anarquia, uma anarquia animal e descontrolada, numa viagem espiral de terror e liberdade. Um romance imperdível da grande literatura hispano-americana, desvendada aqui pela Cavalo de Ferro, a mostrar-se mais uma vez essencial no descobrir de pérolas da mais bela literatura.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

É bom bom bom...

... o Miguel Guilherme no Cabaret Maxime com o espetáculo "Que vergonha rapazes...".
Com textos de Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, O'Neill, O Meu Pipi, Miguel Esteves Cardoso, Alberto Pimenta, Adília Lopes. É incrível que os textos são bons e ele lê-os muito bem, com a arte de quem percebe mesmo o que está a ler. A ver, imperdível.
A maior parte dos textos foi escolhida a partir deste maravilhoso e muito bem conseguido livro da Texto Editora:

que na verdade dá pelo fantástico título de ANTOLOGIA DO HUMOR PORTUGUÊS MAS SÓ O QUE SAIU EM LIVRO E MESMO ASSIM HÁ UNS QUE, SE CALHAR, NÃO DEVIAM AQUI ESTAR E OUTROS QUE NÃO ESTÃO E DEVIAM ESTAR, É COMO EM TUDO. 1969-2009 MAIS OU MENOS, ENFIM, 18 DE ABRIL DE 2008, ATÉ À HORA DE ALMOÇO O MAIS TARDAR, um livro que comprei uns dias antes de ver o espetáculo (há coincidências felizes) naquela trapalhada que dá pelo nome de Hora H da Feira do Livro de Lisboa.
Confesso-vos que há surpresas que me enchem a alma e as medidas e a descoberta com o espaço de dois dias deste livro e deste espetáculo foi sem dúvida uma delas. Fiquei algumas horas em estado de euforia (sou tão esquisita às vezes...)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Isto deve ser giro "todos os dias", "nas horas" e expressões que tais. Deve ser giro giro.

É na Comuna! Vamos, vamos, vamos?

O Craque vem a Lisboa e eu vou lá estar!



No próximo dia 13 de Maio,
no Parque Eduardo VII
(esplanada laranja)
às 18h30

a 80ª Feira do Livro de Lisboa recebe a Visita do Craque

Referimo-nos a Fernando Assis Pacheco em seu glorioso autoretrato desportivo enquanto infante conimbricense: 30 crónicas publicadas há 38 anos no Record, reunidas em livro há cinco, pela Assírio & Alvim, e agora gravadas alto e bom som pelo poeta e recitador Nuno Moura para a Boca (www.boca.pt).

A edição inclui fotografias inéditas e textos de Mário Zambujal, José Carlos Vasconcelos, Nuno Costa Santos e o já referido Nuno Moura. São, aliás, estes os craques que, juntamente com Ana Assis Pacheco, nos falarão destas Memórias de um Craque, autor e obra.

Agradecemos a vossa presença e divulgação.

Sugerimos que tragam um agasalho, que a conversa vai ser boa e as noites andam frescas.
Acrescentamos que a FLL este ano está uma animação e que a BOCA está presente na Tenda dos Pequenos Editores, uma em estilo árabe, à direita de quem sobe.

Pela concorrência desleal, pedimos desculpa ao Papa.

(texto Oriana Alves)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

caim

Caim não matou Abel por ser mau, ou cruel ou insensível. Foi exactamente pelo contrário, por uma sensibilidade descabida e irracional. Foi a primeira vítima de Deus que não soube amar os seus filhos por igual mesmo que o amor paternal possa ter e tem várias formas. No A Leste do Paraíso de Steinbeck, Caim (aqui Caleb) acaba por ter o destino marcado no nome, tentando sempre não "matar" o irmão, apesar dos impulsos que o perturbam. No entanto aqui o pai tem a crueldade justificada na história e no caminho que percorreu. E sente-se no texto o amor do pai, amor esse que não se sente na leitura da Bíblia. E Deus não tem essa justificativa. Não tem nem justificativa para recusar as oferendas de Caim nem para o preterir a Abel, de forma tão clara e visível. Aqui a Bíblia não mente, só nos dá algumas ferramentas para interpretar o que lá está. Saramago, em Caim, mostra bem esta crueladade do Grande Pai, que deixa o filho sofrer e não lhe permite humanidade. E é isso que Caim mostra ao matar o irmão - que é humano, assim como Adão, pai de Caim, foi humano ao comer a maçã. E Deus não lhes permite essa humanidade nem perdoa ou compreende o erro. O Deus criador é aqui um Deus castrador. No entanto (e vá-se lá saber se era essa a intenção dele) Caim ao ver-se obrigado a errar pela terra ("E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.” O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, a Leste do Paraíso.") teve de saber escolher, agora sim, livremente, o seu caminho, com a memória de um crime que, no limite, não seria só seu, seria da raiva que Deus plantou nos seus gestos ao recusar o amor filial.
Se calhar Caim tornou-se existencialista... E ainda bem.

terça-feira, 13 de abril de 2010

ISTO NÃO FICA ASSIM

O blog do encontro livreiro em Setúbal, na mítica Culsete com o livreiro Manuel Medeiros já está disponível aqui. Desta vez não consegui mesmo ir, fico à espera do próximo.

No blog está disponível o maravilhoso texto que o Luís Guerra escreveu sobre o Hermínio Monteiro. Vale a pena ler e vale a pena falar do Hermínio.

About Steinbeck

Fui ver as Vinhas da Ira do John Ford e fiquei a pensar no Steinbeck, um dos amores da minha vida.
Há qualquer coisa que ele sabe e que nós não sabemos. E que ele nos ensina, mesmo que nunca o nomeie. Fala dos laços. Da família que pode ser qualquer uma. Nas Vinhas da Ira é a família de sangue, que se une numa sobrevivência cega. No A Um Deus Desconhecido é o amor à terra, à famíla que nasce e morre num só sítio, onde a terra é o sangue. No Ratos e Homens é a amizade e a irmandade tão forte que nos permite escolher pelo nosso "irmão" entre a vida ou a morte, se ele não o consegue fazer sozinho. Em O Inverno do Nosso Descontentamento é a família que nos vê mais do que é desejado. No Batalha Incerta é a união dos trabalhadores numa greve que só termina com a morte ou a vitória, numa união intrinsecamente inquebrável, onde ninguém cede. E no maravilhoso A Leste do Paraíso é o amor fraterno que resiste ao destino de um nome, é Caim que não quer matar Abel mesmo que essa morte esteja escrita à partida. É um pai que não percebe o amor, nem as formas que ele tem.
A arte de Steinbeck está em ver estas ligações tão invisíveis e tão viscerais numa altura em que desacreditamos a resistência da amizade e da família (a nossa e a que escolhemos) a qualquer preço. Em que a insegurança é o mote dos dias e das crenças. Steinbeck conta-nos outra coisa. Ensina-nos sem ser dogmático. Mostra-nos e conta-nos histórias que podiam as histórias da porta ao lado.

É disto que vou falar hoje na Trama (II)

Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há dos nossos actos um sequer que ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo, é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade.

Jean Paul Sartre, Existencialismo é um Humanismo

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os disparates que se vêem escritos por aí...

Na revista LER, num anúncio a um livro, O Vale das Bonecas de Jaqueline Susann, lê-se:

"A combinação de fragilidade emocional com abuso de drogas é ainda mais chique hoje do que quando foi publicado pela primeira vez."


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terça-feira, 30 de março de 2010

Luiz Pacheco e a sua Comunidade

Todos nós temos com os livros falhas de estimação. Eu nunca tinha lido a Comunidade. O livro esgotado há anos. E há livros que não se pedem emprestados, porque são raros, e um dia chegamos à estante e o livro não está lá e não nos lembramos a quem emprestámos e há aquela tristeza [barra] frustração de quem tem nos livros uma continuidade dos dedos, da cama, do lavatório da casa de banho, do fogão, do sofá da sala, do candeeiro antigo. De quem tem nos livros a propriedade maior.
O que é especial neste livro é que é certo que o Pacheco não se tenha esforçado por escrever aquilo. E quando a escrita não é pensada para ser uma escrita de amor e é, torna-se muito mais verdadeira. Quando não se ama obrigatoriamente um filho porque é um filho e mesmo assim se escreve o que ele escreveu é ainda uma escrita mais preciosa. Quando se é o Pacheco e quando é o Pacheco quem escreve a Comunidade torna-se ainda mais arrebatador. Não porque o Pacheco não fosse capaz de escrever este livro mas porque não seria de esperar que o fizesse e, certamente, não fez qualquer esforço para o fazer. Há qualquer coisa de visceral. Aquilo é assim. Foi assim que aquilo se passou. E aquela família é tão triste como luminosa. E real é a palavra certa para este livro se todos os livros tiverem uma palavra. E a força dele vem desse real inesperado e despido que nos deixa a todos surpreendidos com a vontade que temos em ter um dia uma família [barra] uma cama assim.

Texto integral da Comunidade e tantas outras coisas do Pacheco aqui.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O João Paulo Borges Coelho é o maior!


A entrevista completa aqui.

A sua prosa é clássica, não há qualquer esforço para encaixar no estereótipo do escritor africano. É deliberado?


A minha escrita é clássica mas há, por vezes, um desvio do cânone. Não sou um purista. É verdade que neste livro há uma abordagem mais neutra da língua, como se dissesse que a questão do livro não é a língua.

O facto de o protagonista e narrador ser um alemão também pede essa abordagem mais neutra.

Do ponto de vista daquilo que está construído como sendo a literatura moçambicana, meter uma personagem alemã deixa as pessoas perplexas. É um atentado ao formato clássico. Se calhar devia pôr um colonialista férreo, maléfico, ou então um libertador puro. Mas não é isso que me interessa.

Interessa-o mais a literatura do que esse tipo de discurso?

Desconfio da literatura enquanto arma para educar as pessoas. As pessoas educam-se a si próprias. O livro tem de ser suficientemente aberto para que o usem como entenderem, até para declararem a nulidade dele. Se não há liberdade, perde o interesse. Como tal, resisto muito a que este livro seja considerado um romance histórico.

Domingo na Fnac do Chiado | Hermínio Monteiro



"O Hermínio gostava de partilhar os seus segredos. Trás-os-Montes era um segredo, como a noite de Lisboa. A comida era um segredo, como o vinho e os charutos. Os amigos eram um segredo, como os poetas, que também eram os amigos. E os livros eram o maior segredo."

Apresentação do filme de André Godinho, um filme fantástico, humano, visceral. Sobre o grande editor Hermínio Monteiro, o nosso editor de poesia, no Dia Mundial da Poesia, às 18h30. eu vou lá estar!

quarta-feira, 17 de março de 2010

E só porque é o João Paulo fecho os olhos à Leya. Ele merece... Amanhã lá estarei.



Lançamento de O Olho de Hertzog

João Paulo Borges Coelho
pela Leya

Lisboa
Sociedade de Geografia

18 de Março, 19h

Rua das Portas de Santo Antão, nº 100
com Fernando Rosas


Esta semana é a escondida polémica dos livros - mais uma vez a Leya a protagonizar a visão do livro como mercadoria

Pode-se ler no último JL:

"José da Cruz Santos denunciou recentemente a destruição de 40 mil exeplares de 96 títulos por si publicados na ASA ao longo da última década. Entre eles contam-se obras de autores tão importantes como Vasco Graça Moura (12 títulos), António Ramos Rosa (8), Eugénio de Andrade (5), Urbano Tavares Rodrigues (5), Maria Helena Rocha Pereira (2), Fernão Lopes, Almeida Garret, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, Paulo Quintela, Mário Cláudio, Albano Martins, Manuel António Pina, J. M. Fernandes Jorge, Maria Alzira Seixo, etc. etc., etc..
(...) José da Cruz Santos afirma que a Leya lhe terá enviado uma carta, em Março de 2008, com uma proposta de livros para abate, a que o editor respondeu criticando a medida e sugerindo a oferta das obras a instituições como escolas, prisões e hospitais. "Provavelmente não o quiseram fazer devido aos problemas fiscais e económicos que isso representaria. Mas com o tamanho e importância que o grupo tem, poderiam ter negociado com o Ministério das Finanças." Vasco Graça Moura é um dos autores que viu as suas obras guilhotinadas. Ouvido pelo JL, revelou-nos que não foi avisado pela editora, ficando impossibilitado de comprar os livros que quisesse."

terça-feira, 16 de março de 2010

É disto que se vai falar hoje na Trama



Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro


"...E contudo - penso-o com tristeza - pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo (tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).”

Aos Deuses

Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
Têm prazer ou dores.

Ricardo Reis

“Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro - de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com o título Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.”


Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.

Alberto Caeiro

“Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-me a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.”

Ode Triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.


Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!


Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical --
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força --
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Álvaro de Campos

“Criei, então uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

(...) Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. O meu semi-heterónimo Bernardo Soares que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de "ténue" à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer "eu próprio" em vez de "eu mesmo", etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. (...) “

(em 13 de Janeiro de 1935)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Discurso lido por João Paulo Borges Coelho quando recebeu o prémio das mãos de Armando Guebuzado




Desde tempos recuados que o continente africano se tornou famoso como fonte de matérias-primas. Por elas se matou e se morreu. No princípio foi o ouro da bíblica Ofir e do Mwenemutapa, depois o marfim, o corno de rinoceronte capaz de operar maravilhas no Oriente, e até a energia humana por meio do hediondo comércio de escravos e dos trabalhos forçados. África forneceu pois, ainda que de forma involuntária e nem sempre com proveito, o combustível das grandes revoluções que fizeram o mundo avançar para aquilo que é hoje. À medida que este avançava, novas matérias-primas nela foram sendo descobertas, assim como se apuraram novas maneiras de as pesquisar: o cacau e a borracha, o petróleo, os diamantes, e até o coltan, o chamado “ouro azul” do sul do Congo, sem o qual os notebooks e os telefones celulares não poderiam funcionar.

Todavia, há uma matéria-prima que desde sempre foi passando despercebida às pesquisas, apesar das esforçadas expedições, da sofisticação das análises e dos testes, dos radares e sondas, enfim, dos satélites.
A matéria-prima a que me refiro, em estado bruto parece uma pedra vulgar em nada distinta das outras pedras. É uma pedra feita das histórias das pessoas deste país Moçambique, e desta região: dos seus desejos e sonhos, das suas memórias e disputas, dos lugares que habitam e do que fazem no seu dia-a-dia – enfim, da vida que têm. Talvez (e porque é esta a ordem do mundo enquanto a não conseguirmos mudar), uma pedra mais despojada, mas ainda assim capaz de uma beleza e força singulares.
A par de me desbravar os meus próprios interiores e de me confrontar com a minha própria língua, entendo a escrita literária como o ofício de polir essa pedra. Todavia, dado que para polir cada pedra há primeiro que achá-la, é um ofício que depende também, em grande medida, de mestres garimpeiros. No meu caso tem havido muitos, e quero deixar aqui o nome de três.
O primeiro nome é o de Joaquim Soto, velho camponês das montanhas de Chimanimani, que em certa data do longínquo ano de 1970 que já não consigo precisar, me abrigou de uma chuva torrencial na sua palhota, comigo partilhou o seu milho assado, me ofereceu uma esteira e uma capulana com que passar a noite, ao mesmo tempo que me chamava de seu neto. Revelando-me como vivia e como pensava, entregava-me, com paciência e generosidade infinitas, uma pequena pedra para que eu a polisse.
O segundo nome é o de Suzé Mantia, que no início da década de 1980, nas aldeias de Mavago, Chilolo e Nkalapa, me ensinou o significado do som de cada tambor e como se montava a armadilha dos pássaros; e me indicou a específica rocha, junto ao rio, onde Samora e Josina se sentaram a descansar, a meio da difícil marcha para sul. Em palavras cantantes de uma minúcia real e ao mesmo tempo imaginária, descreveu-me os acontecimentos todos que couberam dentro desse dia. Lenhador fortíssimo, capaz de derrubar uma árvore grossa com três machadadas, era também o marceneiro exímio que fabricava uma porta com pormenores de espantosa subtileza. Homem de um riso límpido como nunca vi igual, e que infelizmente a malária levou.
O terceiro nome é o de Joaquina Mboa, camponesa e sacerdotisa da aldeia de Bawa, que em meados da década de 1990 me contou a saga do Kanyemba, velha de mais de cem anos, com uma precisão que os documentos de arquivo só vieram comprovar – facto que ainda hoje não deixou de me intrigar.
São inúmeros os exemplos destes meus mestres garimpeiros, tantos que é impossível enumerar. Muitos deles provenientes até da imaginação.
Tal como são inúmeros os mestres ourives que, a partir das pedras que lhes chegaram ou chegam às mãos se têm dedicado a minucioso polimento, com isso ajudando a entender os meandros do ofício de que falo: o Craveirinha, a Noémia, o Knopfli, o Luís Bernardo, o Mia, a Paulina, o Ungulani, o Patraquim, o White, o Suleiman. E, em particular, o jornalista e escritor João Albasini, que me levou pela mão a espreitar segredos antigos desta cidade, alguns dos quais este livro, indiscreto, revela.
Tantos são os mestres ourives que é pois também difícil enumerar. Estes e outros por esse mundo fora, que ao longo dos tempos e nos mais diversos lugares nos têm oferecido à leitura as suas jóias particulares. Porque é de leitura que falo, dado que é através dela que podemos chegar à miríade de brilhos e reflexos que de cada jóia emana.
Este livro, “O Olho de Hertzog”, que o júri do Prémio Leya resolveu premiar, conta uma história que curiosamente gira também ao redor de uma pedra. Uma pedra que eu – ourives não de primeira, mas de recente viagem – formalmente hoje devolvo ao lugar onde a fui buscar. Pretendo que o gesto seja um contributo no esforço de tantos mestres garimpeiros e ourives que se dedicam a levantar a parede – que já vai alta – da literatura moçambicana. Desejo também que essa parede seja parte integrante e importante daquilo a que podemos chamar simplesmente a Casa da Literatura.


João Paulo Borges Coelho
Maputo, 4 de Março de 2010

Já saiu já saiu já saiu já saiu já saiu


"O que procura Hans Mahrenholz, um oficial alemão que se faz passar por empresário e jornalista inglês, nas ruas da Lourenço Marques de 1919, ainda no rescaldo da Grande Guerra? E por que não assume a sua verdadeira identidade? E por que procura desesperadamente um mulato com nome grego e uma longa cicatriz? E como o pode ajudar um dos mais famosos jornalistas dessa cidade, um mestiço assimilado e carismático? Hans Mahrenholz (ou Henry Miller) chega ao norte de Moçambique num zepelim e é largado de pára-quedas, sozinho, em plena selva, com a missão de se juntar ao contingente do general Lettow. Consegue-o. Mas todo o resto da campanha militar é assombrada pela estação das chuvas, a floresta virgem, a malária e os confrontos com os exércitos inglês e português. Quando chega a Lourenço Marques, Hans já não é o herói ingénuo e corajoso que se juntou a Lettow. É uma personagem misteriosa com uma missão misteriosa…"

quarta-feira, 10 de março de 2010

e porque estou numa de Mário-Henrique Leiria, e porque comprei ontem na valiosa Trama os Novos Contos do Gin...

...e porque está esgotado em todo o lado os Contos do Gin-tónico e o meu desapareceu de minha casa, e porque a última vez que fui à BN vi estes desenhos na minha mão e comovi-me porque sou uma menina no que toca aos meus surrealistas, e tudo e tudo e tudo cá fica este desenho do MHL



uma delícia - Júlio Cortazar explica a origem dos seus míticos personagens - os cronópios e as famas

Um livro I-N-D-I-S-P-E-N-S-Á-V-E-L em todas as mesas de cabeceira, aqui as duas edições, espanhola (Punto de Lectura) e portuguesa (Estampa). O requinte do humor com a arte única da escrita de Cortázar. Bom, bom, bom!


uma pérola = Mário-Henrique Leiria + Mário Viegas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

os movimentos de ruptura (ainda os "mal comportados")

Enquanto me misturo em folhas e livros para o workshop que aí vem penso nas rupturas que os "mal comportados" procuram. Tudo o que hoje nos chega da Literatura Portuguesa do século passado é fruto de rupturas, manifestos que contestam a literatura anterior. O Realismo (ainda no século XIX) e a Geração de 70 contestam o Romantismo, o Modernismo contesta o Realismo, a Presença o Modernismo, o Surrealismo a Presença, o Neo-realismo o Surrealismo... (isto claro na vertente simplista da "coisa" que nada disto é bem assim). Seja como for vê-se o que é original, lê-se o que é novo e que provoca os espíritos. O Surrealismo poderia ser mais provocador do que o Neo-realismo mas o Neo-realismo era mais importante naquela fase, mais necessário. O mesmo se passou no cinema, nas artes plásticas. O mesmo acontece na vida de todos os dias, onde os momentos que nos definem acabam por ser os movimentos de ruptura e revolta, não necessariamente negativos. Aliás na literatura quase nenhum movimento foi na verdade um movimento de ruptura negativa. Cesário Verde considerado muito próximo do Realismo, chamou a atenção para a Teoria das Correspondências, de Baudelaire, que fez nascer o Simbolismo cujo principal autor foi Camilo Pessanha que foi editado pela primeira vez pelos Modernistas.
O que importa aqui é que as rupturas são necessárias, saudáveis e as melhores amigas da criatividade e da arte original. Há décadas que não assistimos, aqui e no resto do Mundo, a verdadeiros movimentos de ruptura literária. Talvez porque esta democratização da Literatura (tão ambígua que ela é) onde tudo se lê e todos lêem dispersou a Literatura por aí. Ou então porque esta mesma democratização permitiu que o que se faz chegue a um maior número de pessoas. Porque na primeira metade do século passado muito do que se escreveu não chegou até nós.
É dessa ruptura que estamos a precisar. Em todas as áreas. Estamos artística e ideologicamente adormecidos, reeditam-se dinossauros mal comportados mas arrisca-se pouco ou nada em novos nomes mal comportados. Temos de os encontrar. Eles estão por aí.

MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA MYRA





... ganhou o Prémio Correntes d'Escritas! Deste prémio eu gosto, e gosto tanto tanto tanto do livro! Não consigo agora ser mais científica do que isto, estou tão entusiasmada, é tão bom ver BONS livros lidos e reconhecidos. É grande, este livro. Todos ao MYRA!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

enviaram-me esta foto com o seguinte comentário:




"E eu a pensar que aquilo até era uma literatura à séria, pesada! Afinal não, é só 2,28€."

Delicioso.

oh... Tão bom e eu a trabalhar, não posso ir, alguém me conta como foi?


Encontros IELT 2010 – Máscaras , mistérios e segredos FCSH/UNL


25 de Fevereiro

10H00
Das máscaras e dos processos
- Figuras do outro: máscaras, efígies e segunda pele – Carlos Augusto Ribeiro
- Do rosto como máscara no teatro latino – Inês de Ornellas e Castro
- A máscara: do rito ao teatro – André Gago
- A máscara da identidade: donzela ou guerreiro? Reminiscência de mitos e de
cultos ancestrais – Natália Nunes
- Máscaras Transmontanas: do registo escondido à emblematização – Paula
Godinho

15H00
A máscara no modernismo português
- Fernando Pessoa: Introdução ao uso da máscara - Teresa Rita Lopes
- "Brincar a ser muitos". Máscaras do policial pessoano - Ana Freitas
- Fernando Pessoa: A Arte de se "outrar" - Luísa Medeiros
- A Escrita epistolar: Entre o rosto e a máscara - Manuela Parreira da Silva

17h30
Apresentação pública do no 24 da Sigila - revista transdisciplinar luso- francesa sobre o segredo, com Florence Lévi, Carlos Carreto e Bracinha Vieira

26 de Fevereiro

10H00
Segredos e mistérios
- Metáforas de origem, instrumentos de poder e identidade: "mistérios e segredos" na tradição oral entre os Bunak, Timor-Leste – Lúcio Sousa
- Segredinhos, segredos e enigmas - Ana Paula Guimarães • Imagens, enganos e desenganos – a neutralização da fábula nas «fábulas
tradicionais» - Ana Paiva Morais
- Revelar segredos em web vídeo- Filomena Sousa

12H00
Conferência de encerramento: O rosto e a máscara – Jorge Crespo

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

E junto aos arquitectos eis que surge José Tolentino Mendonça, com uma tirada destas:


A arte nasce de um mal estar. A fé nasce de uma ferida. Nascem os dois de uma procura de algo mais. Como dizia Sá-Carneiro, precisamos de "um pouco mais de azul"
.

Não é facil falar de religião num momento em que a religião ou nos cega ou nos revolta. Torna-se cada vez mais difícil reconhecer na religião uma espiritualidade desinteressada. O Tolentino ainda consegue. Ainda assim, e quando fala da poesia, considera-se um "poeta profano".

É esta a escrita dele:
"Acho que o sentido por excelência de um escritor é o ouvido. E, mesmo se não escrevo todos os dias, estou sempre atento à conversa humana, às palavras, ao seu ritmo, à sua temperatura. Estou sempre a tomar apontamentos, pequenas anotações. E daí parto para outras associações, preencho lacunas, continuo frases. Essa é a minha oficina."

mais uma pérola do nosso querido valter hugo mãe

Em entrevista à revista OS MEUS LIVROS deste mês:

Tens um poema intitulado "valter hugo mãe" que começa assim: "o rapaz dotado de três mortes / tem o nome exactamente igual ao meu". Por acaso sabes quantas ele já gastou?

As três. Não pode gastar mais nenhuma. Mas quer morrer menos do que nunca. No meio da confusão, talvez me sinta mais feliz do que nunca. Enfim, uma felicidade assim consciente, porque vejo em meu redor tanta coisa a desmoronar que é impossível ser-se feliz à grande. Já não corro para a morte. Faço caso e deixo que seja ela a vir apanhar-me, se assim o entender. agradeço que me ignore um pouco, anseio sempre pelo Verão.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

ai... ai... que o Jorge Silva Melo mudou o texto... Vamos lá acabar com o preconceito. Com Sófocles e JSM no coração, entre os do Teatro, os maiores


Rei Édipo
Sala Garrett
Teatro Nacional D. Maria I


18 de Fev a 28 de Mar 2010


4ª a Sáb. 21h30 | Dom. 16h

Escrita por Sófocles por volta de 427 a.C., Rei Édipo foi considerada por Aristóteles o mais perfeito exemplo de tragédia. No mito de Édipo, confrontamo-nos com as nossas perguntas sobre a identidade do poder, a ascensão e queda dos vitoriosos, a incerteza da vida, a relação entre o público e o privado, o desígnio do destino em oposição ao livre arbítrio. Jorge Silva Melo apresenta uma nova versão desta tragédia que é uma das peças mais adaptadas e interpretadas em todo o mundo.

A peste atinge a cidade. E o Rei Édipo quer saber porquê. Juntam-se as gentes à porta do palácio. E o Rei vem ter com a multidão e diz:

Nas ruas,
há gemidos, cantos fúnebres, lamentos.
Mas chora o quê a nossa cidade?
Que esperais?

De pergunta em pergunta, de resposta em resposta, os enigmas vão caindo. Édipo quer saber. Quer saber que maldição paira sobre a sua cidade, quer saber quem é. Vai descobrir uma verdade tremenda. Esta é a tragédia do saber.



(a partir de Sófocles)



cenografia e figurinos Rita Lopes Alves

luz Pedro Domingos

música original Pedro Carneiro

espacialização e assistência musical André Sier

acompanhamento dramatúrgico José Pedro Serra

versão e encenação Jorge Silva Melo



com Diogo Infante, Lia Gama, Virgílio Castelo, António Simão, Cândido Ferreira, José Neves, António Banha, Pedro Gil, Américo Silva, André Patrício, Bernardo Almeida, Daniel Pinto, David Pereira Bastos, Elmano Sancho, Estêvão Antunes, Hugo Bettencourt, Hugo Samora, João Meireles, João Miguel Rodrigues, João Delgado, Joaquim Pedro, John Romão, Manuel Sá Pessoa, Miguel Telmo, Miguel Aguiar, Pedro Lamas, Pedro Luzindro, Pedro Cardoso, Pedro Mendes, Ricardo Batista, Ruben Tiago, Tiago Matias, Tiago Mateus, as crianças Beatriz Lourenço e Neuza Campos | Beatriz Monteiro e Margarida Correia | Inês Antunes e Inês Constantino e os músicos Ângela Carneiro, David Silva, Marco Fernandes



assistente de cenografia: Luís Carvalho

caracterização especial: João Prazeres

assistência de encenação: Luís Filipe Costa, João Miguel Rodrigues, Pedro Lamas

assistência de produção: João Meireles

co-produção Teatro Nacional D. Maria II / Artistas Unidos em colaboração com a Orquestra de Câmara Portuguesa



direcção de cena Carlos Freitas/Manuel Guicho

ponto: João Coelho

operação de som: Pedro Costa

operação de luz: Pedro Alves

maquinaria: Rui Carvalheira

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

isto vai ser o máximo!


O próximo convidado do ciclo de conferências Livres Pensadores, que regressa dia 18 de Fevereiro, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, é Christopher Hitchens. Hitchens (n. 1949) é frequentemente considerado um dos mais proeminentes representantes do moderno ateísmo, e é descrito como fazendo parte do movimento do “novo ateísmo”. O seu livro Deus não é Grande - Como a religião envenena tudo (D. Quixote/ LeYa), publicado em 2007, levou a que ascendesse a essa posição de grande destaque. É colaborador da Vanity Fair e professor convidado de estudos liberais na New School. A conferência que fará na Casa Fernando Pessoa intitula-se A Urgência do Ateísmo/ Necessity of Atheism e tem tradução simultânea. A entrada é livre.

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley


(o poema que inspirou Mandela na prisão. Impressionante.)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

e salta um programa quentinho, acabado de fazer, para o nosso workshop




9 Março – realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo

16 Março – modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura

23 Março – surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny), surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)

30 Março – neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira). O cinema neo-realista.

6 Abril – literatura tradicional – sem tempo e sem escrita.

13 Abril – anos 50 a 70: literatura sem marca. Literatura feminina. Vergílio Ferreira e o Existencialismo.

20 Abril – nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras.

27 Abril – balanço.

eu bem disse que não havia nada que ele me dissesse para comprar que eu não comprasse

e desta feita foi este





ainda por cima há uns dias recebi um e-mail que me informava que o Pitta nasceu moçambicano mas que hoje já é português.

uma pequena arma para o meu curso de literatura. as inscrições estão quase fechadas! e estão mesmo, não é truque de charme!

hoje pediram-me que lesse este


editado na recente e fantástica colecção da D. Quixote, Biblioteca de António Lobo Antunes.
O "Estórias com Livros" gosta e fica contente com as sugestões dos leitores!

Roubei...


... daqui. Não resisti.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Prémio da FIC para Tolentino de Mendonça

Enviaram-me esta notícia boa:

O padre e poeta José Tolentino de Mendonça recebeu ontem o prémio literário Fundação Inês de Castro (FIC) pelo livro O Viajante sem Sono (Assírio e Alvim, 2009). Após receber o prémio das mãos do reitor da Universidade de Coimbra (UC), Fernando Seabra Santos, o autor revelou que recorda nesta sua obra "amigos que morreram e que continuam comigo". Frisou ainda que "a poesia é uma forma de partilhar com eles o lume". O prémio da FIC distingue obras de expressão literária sobre motivos "inesianos" (alusivos à cortesã castelhana cujo assassinato terá sido perpetrado no espaço da actual Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde a lenda situa igualmente os amores de Inês e D. Pedro I).

"A poesia de Tolentino de Mendonça é uma poesia de elevação sem retórica do sublime", disse na ocasião o professor universitário José Carlos Seabra Pereira, membro do júri. O docente da Faculdade de Letras da UC realçou o "gosto de dizer as coisas e a beleza do mundo" do premiado, alegando que a sua poética "desconhece as pronúncias de triunfantes de Deus".

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

vamos lá a ser um bocadinho fundamentalistas outra vez....

esta foi a minha mais recente compra. e quando me pediram "explicações" esta foi a minha resposta:

"acho muito importante os movimentos radicais como as guerrilla girls. sem radicalismo vamos definhando devagar. não acredito que cada uma das guerrilla girls seja totalmente e no seu íntimo tão radical como o movimento em si. assim como não é bom que existam muito mais realizadores homens do que mulheres, também não faria sentido um movimento artístico como as GG que fomenta uma arte exclusivamente feminina. no entanto é a melhor forma de essa arte feminina ser vista. é preciso sermos radicais para sermos vistas, os homens não precisam disso, são naturalmente privilegiados pelos meios culturais, sociais, etc. quanto aos realizadores homens parece-me que o movimento é semelhante em todo o lado (literatura, pintura, etc) onde havendo poucas mulheres as que são boas são também poucas. mas isso deve-se a um processo cultural onde as mulheres não vingavam e inverter esse processo (porque acredito que hoje em dia já podem vingar, ainda que com limitações) são necessários muitos e muitos anos. nos anos 50 quase não havia mulheres nas faculdades. e 60 anos não é nada para um processo deste género... não acredito que existam áreas artísticas propícias a um determinado género. acredito sim que cada género manifesta de forma muito diferente a sua arte."

e tenho dito.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

(we're back) WORKSHOP DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC. XX




(a pedido de vários amigos & Etc regressa o curso de Literatura Portuguesa do séc. XX que fiz o ano passa na InterCultura Cidade. Desta vez chama-se workshop porque tem umas surpresas livreiras e literárias e porque não queremos enganar ninguém!)

Este workshop destina-se aos leitores que estão interessados em conhecer autores portugueses mas que não sabem por onde começar. O objectivo é dar uma ideia geral dos movimentos mais importantes do século passado, apresentando autores representativos de cada época. Uma passagem pelo modernismo, pelo surrealismo, ou neo-realismo é, por exemplo, garantida. Vamos experimentar a literatura, ouvir leituras e ouvir pessoas. Aproveitando a variedade de títulos que a livraria tem à disposição haverá espaço para outras curiosidades.

imagem (mais do que) gentilmente cedida por Pedro Vieira

Todas as 3ª das 19h às 20h, de 9 de Março a 27 de Abril, na Livraria Trama

€30,00
N.º Máximo de participantes: 12
inscrições e informações para o e-mail livraria.trama@gmail.com

a este curso seguir-se-ão:
* literatura norte-americana e hispano-americana
* literatura infantil

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Não resisto...

Há algumas formas fáceis de fazer com que eu compre um livro. Muitas até, e muitas delas já aqui foram referidas. Hoje li isto na LER:

No meu caso, mesmo conhecendo boa parte da escrita de Lydia, não recordo exactamente onde a li pela primeira vez. Sei que foi na Internet depois de um amigo escritor me ter dito, com aquela convicção que os amigos escritores costumam exibir: "Tu tens mesmo de ler Lydia Davis, ouviste? Tens que ler MESMO!" (as maiúsculas correspondem a um enfático crescendo). E eu fui ler.

José Mário Silva

Primeiro, gosto do José Mário Silva, muito. Depois relembrou-me os cursos de literatura no Intercultura quando aconselhava livros que gostava com a base científica que assenta em "Gosto tanto... ai... ai... é mesmo bom. Nem sei explicar muito bem... Têm de ler." Eram os livros mais lidos. E a Lydia Davis já a comprei! Aqui.

e não é que na Ler deste mês....

o Rui Ramos continua sem ter piadinha nenhuma? Nem o Carlos Vaz Marques lhe dá uma corzinha... Nem quando refere que a esquerda lhe provoca um "efeito de nojo" consegue arrepiar o mais fervoroso revolucionário.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Parafraseando Vera Vitorino

Adoro-te Bandini... Arturo Bandini.

(e nós gostamos tanto que gostem dos "nossos". viva o fante!)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Acabei a minha noite de ontem a discutir com um amigo que livro lhe ia eu emprestar, eu que nunca antes lhe emprestara um livro. Espinhosa missão.
Iniciámos um jogo que mais parecia aquele jogo dos miúdos, de que agora não me lembro o nome, onde íamos eliminando bonequinhos com perguntas tipo "usa chapéu?" ou "usa bigode"?
Então era assim:

É português? ("usa óculos?") click
É sul americano? ("é ruivo?") click
É mulher? ("é mulher?") click (esta é igual!)
É poesia? ("tem barba?") click

Bem, a diferença é que no jogo eliminamos os "nãos" e ele queria que eu eliminasse os "sins". Saiu de lá com uma mulher e um sul americano, seis meses de prazo para ler, uma promessa minha de ler um livro "dos dele", e alguma má vontade. Vamos lá ver quem ganha esta batalha. Duvido que seja eu. O preconceito é um adversário cheio de boas armas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

vale tão a pena espreitar...

eu vou espreitar o meu agora, em papel. Deixo-vos um cheirinho, um cheirinho só, de um livro que só de folhear vale a pena, como poderão ver aqui

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997