quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mulheres Escritoras (parte V)




ROSA MONTERO








Há muito preconceito à volta de Rosa Montero, apesar de não perceber muito bem porquê. Talvez o facto de escrever em castelhano e a nossa "opinião pública" (???) não gosta muito de mulheres que escrevem em castelhano. Não gosta muito de mulheres que escrevem (ponto). (E quanto a isso não argumentem com esta livreira que atende em média 1786 pessoas por dia mais colegas que, conta a lenda, percebem e gostam muito de livros).


Rosa Montero é uma escritora de excelência. Sabe não só contar uma história como deve ser mas também constrói personagens que são uma e todas as personagens. Sem doçura nem meias palavras as personagens de Rosa Montero são aquilo de mais duro, real e por vezes perverso que todos nós temos. Assim não será de estranhar que as biografias que Rosa escreveu sejam absolutamente imperdíveis, pois contam a história que todos mais ou menos acabamos por conhecer mas que nos surpreendem por contar sempre "aquele" lado da história mais grotesco e inesperado.



Pasiones conta histórias de amor e Historias de Mujeres conta histórias de mulheres, como o nome indica.
No entanto aquele que é mesmo uma obra prima é Historia del Rey Transparente. Em plena época medieval uma rapariga decide partir à procura do namorado que desapareceu numa invasão à aldeia. Para isso tem de se vestir de homem, largar tudo e partir numa viagem iniciática em busca da sua independência e do seu lugar de mulher num mundo misógino. O namorado fica pelo caminho e a viagem dela acaba por ser uma viagem não planeada guiada pelo acaso que a liga às figuras mais estranhas e improváveis num hino à amizade e ao amor real, onde não há princesas nem finais felizes. Onde há outra coisa. Avalon, que só Rosa Montero consegue descrever e, atrevo-me mesmo a dizer, descobrir.

domingo, 26 de abril de 2009

Porque lemos?

Depois de tantas reflexões à volta dos livros e da leitura fiquei com a pergunta às voltas na cabeça: afinal porque é que lemos?
E hoje apetece-me responder sem filosofias, talvez porque já seja tarde e estou demasiadamente cansada, ou porque faz muita falta voltarmos a tratar os livros por tu.
Eu leio porque gosto dos livros. Porque de manhã vou no combóio e estou a caminho de um dia comprido de trabalho e quero viajar um bocadinho antes de lá chegar. Leio porque gosto de histórias, de conhecer pessoas com quem nunca me vou cruzar e sítios a que nunca hei-de ir porque estão na cabeça dos autores e não nos mapas. Leio porque estou e férias e fico mesmo feliz por ter tempo para ler. Leio porque acredito que a escrita é a forma mais pura de falar. De mandar mensagens ao mundo ou só a uma pessoa. Leio porque os livros pelos quais somos loucamente apaixonados são o assunto mais encantador que se pode ter numa conversa de café. Leio porque sou dotada de uma curiosidade doentia (só com os livros). Leio porque muitas vezes fui salva por um livro, quando o real diário se tornava insustentável. Leio também porque os livros são objectos bonitos. E há uns que são mesmo bonitos. E além disso são objectos que podem andar sempre connosco e o conforto é também termos connosco todo o dia o que de nosso é mais bonito. Nunca me vou fartar de ler nem de livros. O facto de trabalhar com livros não me saturou, conseguiu apenas que eles se tornassem a minha casa.
Vou viver com eles e para eles o resto da minha vida.

Um livro precioso

Pedro Páramo

Juan Rulfo (México)





La gente se muere dondequiera. Los problemas humanos son iguales en todas partes. No son temas nuevos el amor, la muerte, la injusticia, el sufrimiento, que están sugeridos en Pedro Páramo. Me han dicho que es "una novela de amor a los desamparados". Yo no sé. Yo narro la búsqueda de un padre, como una esperanza. Como quien busca su infancia y trata de recuperar sus mejores días, y en esa búsqueda no encuentra sino decepción y desengaño. Y al final se derrumba su esperanza "como un montón de piedras".
Juan Rulfo

Eu vou!

Festival Indie Lisboa 2009
30 Abril
19h
Cinema São Jorge
Sala 1

Bartolomeu Cid dos Santos - Por terras devastadas
Jorge Silva Melo

Documentário, Portugal

Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008), gravador, pintor, é um dos grandes artistas do século XX. O seu é o mundo crepuscular do fim do Império, ele que criou as primeiras metáforas contra o Colonialismo Português. E que, com renovada vitalidade, se insurgiu contra a Nova Ordem Mundial. Sabendo, com Eliot, que "tempo passado e tempo futuro estão ambos presentes no tempo presente". Um retrato cúmplice do artista assinado por Jorge Silva Melo.



Manuel Hermínio Monteiro
André Godinho

Documentário, Portugal

O Hermínio gostava de partilhar os seus segredos. Trás os Montes era um segredo, como a noite de Lisboa. A comida era um segredo, como o vinho e os charutos. Os amigos eram um segredo, como os poetas, que também eram os amigos. E os livros eram o maior segredo. Desvendou-os todos na Assírio & Alvim.

Está quase!

A Feira do Livro de Lisboa está quase aí, apesar de quase ninguém saber que, este ano, a Feira não vai ser mesmo na entrada do Verão. De 30 de Abril a 17 de Maio, no sítio do costume!
O horário mudou, as bancas também. Para saber mais - aqui.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Cidades Invisíveis


Que livro não vive sem outro livro? Existe o livro?

“- Falta uma de que nunca falas.
Marco Polo baixou a cabeça.
- Veneza – disse o Kan.
Marco sorriu. – E de qual julgavas que eu te falava?
O imperador nem pestanejou. – Mas nunca te ouvi dizer o seu nome.
E Polo: - Sempre que descrevo uma cidade digo qualquer coisa de Veneza.
- Quando te pergunto por outras cidades, quero ouvir-te falar delas. E de Veneza, quando te perguntar por Veneza.
- Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza.”

Italo Calvino
Cidades Invisíveis

Cidades Invisíveis

É claro que a leitura não surge por acaso. E, mesmo que surgisse, deixava de ser um acaso no momento em que existe. Porque a leitura liga sempre a outras leituras, já feitas e, arrisco mesmo a dizer, por fazer. Como uma teia, cada livro muda as leituras futuras e as passadas, e também a nossa leitura interior. Muda porque acrescenta alguma intenção ao Leitor. São cidades em teia, como uma das cidades de Calvino.
O acaso vem do momento em que escolhemos começar a ler um livro. Quando temos em casa aquela pilha de livros não lidos mais a nossa lista interna de livros por ler, surge um outro que, por qualquer razão, vai ser lido antes dos outros. E aí começa a viagem - fazer com que esse acaso acabe por encaixar dentro da nossa cidade. E, atenção, esse encaixe é inevitável. Não há leituras vazias. Há, sim, leituras que constroem partes diferentes das cidades.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cidades Invisíveis

Faria sentido um mundo só de bons livros?

Um bom livro seria, no limite da sua definição, um livro que cumpre o objectivo que, para cada leitor, o livro tem de ter. Mas que objectivo é esse? Nestas cidades que construímos, será que precisamos sempre de equilíbrio? Ou por vezes precisamos de ruas apertadas e frias e prédios decadentes? Claro que podemos também pensar que essas mesmas ruas pode ser exactamente o que alguns leitores procuram enquanto outros preferem casas baixas e luminosas, pontes, estradas largas. Se procuramos livros e cidades diferentes será sempre difícil definir o que é um bom livro. A não ser que seja possível separar a noção de bom livro da noção do “nosso” bom livro. Uma opção certamente demasiado académica...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Finalmente!

TONI MORRISON EM PORTUGUÊS!

Esgotado há muitos anos em português, o regresso aguardado e desejado de Toni Morrison. Nasce em 1931 e ganha o Prémio Nobel em 1993. Escreve sobre o que é ser mulher nos Estados Unidos, sobre a beleza e a amizade. Dotada de uma sensibilidade incrível e uma escrita tão doce como pungente, traz-nos com a poesia da linguagem a crua realidade americana. A ler!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Cidades Invisíveis

Quando lemos constroem-se cidades. Há prédios altos e casas pequenas. Bairros operários e ruas com uma árvore em cada jardim. Há ruas de lodo e mau cheiro. Há aquele recanto secreto que só nós conhecemos e que fazemos questão (por vergonha?) de não dizer a ninguém que existe. É a nossa cidade invisível. Construída de leituras, as primeiras, as que escolhemos, aquelas em que tropeçámos.
As leituras nunca são iguais, mas será que há leituras vazias? Leituras que não constroem nada. Leituras que não entram na nossa cidade. Quando faço mudanças há sempre um livro que encontro e que já não me lembrava nada de ter lido. Muitas vezes quando o folheio a cidade grita e eu lembro-me da rua que ele ajudou a construir. Ou então não. Será porque não construiu nada? Ou porque a cidade está esquecida?

"Mas foi inutilmente que parti em viagem para visitar a cidade: obrigada a permanecer imóvel e igual a si própria para melhor ser recordada, Zora estagnou, desfez-se e desapareceu. A Terra esqueceu-a"
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

Cidades Invisíveis - Vamos falar de Livros?




"Depois de passar seis rios e três cadeias de montanhas surge Zora, cidade que quem viu uma vez nunca mais pode esquecer. O homem que sabe de cor como é Zora, nas noites em que não consegue dormir imagina que anda pelas ruas e recorda a ordem em que se sucedem o relógio de cobre, o toldo às riscas do barbeiro, o repuxo dos nove esguichos, a torre de vidro do astrónomo." Italo Calvino


22 de Abril


21h30




A propósito do dia do mundial do livro, a 23 de Abril, a Associação Cultural Respigarte e a Livraria Trama quiseram colocar algumas questões àqueles que parecem ter com os livros uma relação que vai muito além do consumo. O livro, produzido e reproduzido em massa, continua a ser objecto de culto. Numa época em que as montras das livrarias se renovam diariamente, ao ritmo incessante das publicações, porque razão se procuram tanto alguns títulos esgotados?Cada livro é um edifício, uma construção no leitor. A cada nova leitura vai-se formando um bairro, com largas avenidas, becos estreitos, pontes, jardins. Como se arquitecta esta cidade invisível? Qual o percurso do leitor, de que modo passa de uma construção para outra e, acima de tudo, como se relaciona a nossa cidade com a cidade do leitor ao nosso lado. Queremos saber qual o ponto de encontro, que caminhos se usaram para chegar a Roma. Todos são possíveis, como se sabe. Serão convidados escritores, músicos, tradutores, editores, encenadores e, acima de tudo, LEITORES.

Diana Mascarenhas vai desenhar ao vivo o mapa da nossa cidade, o roteiro das nossas leituras.


Moderação

Rosa Azevedo


Convidados

Jorge Silva Melo

Pedro Vieira

Francisca Cortesão - Minta

Abel Barros Baptista

Jorge Fallorca

Luís Filipe Cristóvão

José Mário Silva

(outros que tais, ainda por confirmar!)


Actualizações sobre as misteriosas linhas desta conversa:





curso de literaturas americanas


curso de literaturas americanas

rosa azevedo e joão santos


de 21 de Abril a 19 de Maio

3as feiras, das 19h às 20h


Literatura hispano-americana

Realismo Mágico

Juan Rulfo, Júlio Cortázar e Jorge Luís Borges

Literatura norte-americana

Poesia Prosa – Literatura Pós II Guerra Mundial

Sócios 15€ - Não Sócios 20€*

Centro InterculturaCidade
Rua dos Poiais de S. Bento, nº 73 A

Para inscrições e outras informações



936584536


*Ser sócio da Respigarte custa 5€ por ano. A inscrição pode ser feita no acto de pagamento do curso.

domingo, 5 de abril de 2009

Novas datas do Clube do Livro

9 Maio - Mistério do Vális , Philip K Dick
20 Junho - Leste do Paraíso, Steinbeck
25 Julho - Lua e cinco tostões, S. Maugham
19 Setembro - Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón
31 Outubro - Mesmo Mar, Amos Oz


Apareçam no mais divertido dos Clubes do Livro, na Trama, como sempre. Basta que tenham lido e podem falar connosco e com a pessoa que escolheu o livro. O meu é, claro, o Steinbeck. Falarei mais dele nessa altura... Até lá!

Livros para encher a alma e os olhos











Livraria Trama

Há em Lisboa uma livraria à séria. Para além de livros tem paredes que nos fazem ter ainda mais vontade de os ler. Mas o que faz mesmo a livraria, o que a torna única nesta estranha cidade, são os que a fazem e que realmente gostam de livros. Porque a Catarina e o Ricardo gostam de livros. E neste meio frenético de amantes de livros poucos são os que realmente são apaixonados por eles.

Além de livros há espetáculos e bom café. A visitar e a voltar. Cinco estrelas.

Edição de Livros na Booktailors


Um livro sobre edição é raro. E este é dos bons.



Saber mais aqui.

Se os Poetas Fossem Menos Patetas - Boris Vian

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melfiarufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como ela sob os dedos
Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois

Manuel Resende

Manuel Resende, Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Barlomeu de Las Casas , &Etc, 1997